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"Eles se chamarem por New Order hoje me faz rir", diz Peter Hook

26 out 2012
11h51
atualizado às 15h33
Felipe Tringoni

Baixista prolífico, dono de clube, DJ e escritor, o multifacetado Peter Hook ainda tem o que contar. O som de seu baixo, alto e melódico, foi central para estabilizar Joy Division e New Order como dois dos grupos mais influentes da história da música, do rock à eletrônica. Hoje, mesmo afastado do New Order - que segue sem ele -, Hook ainda faz questão de falar alto e chamar atenção, se não com o instrumento que o consagrou, no comando de picapes ou com declarações polêmicas. "Eles se chamarem por New Order hoje em dia me faz rir. Seria como se eu me chamasse de Joy Division. É estúpido", disse em entrevista ao Terra.

E é para tocar como DJ que o inglês volta ao Brasil nesta semana. Desta vez, seus sets terão lugar nas filiais mineira e paulista do Na Mata Café. A primeira discotecagem acontece nesta sexta-feira (26) em Belo Horizonte, e no sábado (27) ele toca em São Paulo.

Peter começou a fazer sets após sua saída do New Order, em 2007. Desde então, além de "atacar de DJ" ocasionalmente, ele já escreveu dois livros - The Haçienda: How Not to Run a Club, sobre sua experiência como proprietário da famosa casa noturna de Manchester, e o recém-lançado e elogiado Unknown Pleasures: Inside Joy Division, que trata dos anos com sua primeira banda - e montou dois novos grupos: o Freebass - ao lado de outros dois lendários baixistas de Manchester, Andy Rourke (ex-Smiths) e Mani (Stone Roses) - e também o The Light - para fazer uma turnê em homenagem ao primeiro álbum do Joy Division em 2010. Com essa banda, Hook pretende fazer novos shows, agora para celebrar seus dias de New Order. "Ficarei muito feliz em mostrar ao grupo que hoje em dia se chama de New Order que nós não somos a mesma coisa", provoca.

Confira a íntegra da entrevista abaixo.

Terra - Peter, você vem ao Brasil semana que vem para mostrar seu lado DJ. Não é a primeira vez, certo?
Peter Hook -
Não, eu já estive aí muitas vezes. Será provavelmente minha sexta vez no Brasil, talvez até mais que isso. Desde que tocamos aí como New Order nos anos 1980 eu sempre tive grande afinidade com o país. E tenho muitos fãs por aí, então sempre é muito bom.

Terra - Muita gente fala desses primeiros shows do New Order no Brasil (em 1988, a banda fez seis apresentações em três cidades brasileiras) até hoje, foram históricos.
Peter Hook -
O New Order nunca mais tocou bem daquele jeito, não é? (risos)

Terra - Alguma expectativa em tocar aqui novamente?
Peter Hook -
Não, quero dizer, eu já estive com vocês todas essas outras vezes e sei que sempre sou muito bem recebido e muito bem cuidado. Estou confiante que será assim de novo.

Terra - E o que podemos esperar de seus sets?
Peter Hook -
Eu toco muita coisa, de Sex Pistols a Labrinth. É realmente importante não ficar parado nos tempos da Madchester ou do Haçienda. Eu acho legal poder tocar músicas novas juntos de músicas antigas.

Terra - Falando no Haçienda, você está lançando uma compilação com Graeme Park e Mike Pickering (DJs célebres da casa) chamada Haçienda 30, e em junho organizou festas para os 30 anos do clube. Como você enxerga o legado do Haçienda hoje em dia?
Peter Hook -
É muito importante para muitas pessoas. O Haçienda existiu por 16 anos, então muita gente começou a frequentar clubes com o Haçienda, e ele terminou. Musicalmente, teve um impacto massivo com a Acid House e a Madchester. O interessante da coletânea é que eu fiz o primeiro disco, de Acid House, e esta é a primeira vez que temos os DJs que tocaram de fato no Haçienda, e isso me deixa muito feliz. Sobre a festa do trigésimo aniversário, fizemos no novo espaço do bar Haçienda. Foi um evento fantástico, e eu acho que captou o espírito da época muito, muito bem.

Terra - Desde o Joy Division e o New Order você mostrou tendências eletrônicas em sua música, e hoje em dia a maior parte dos grupos de música pop e rock usam recursos eletrônicos em suas canções. Como um pioneiro desse som mesclado a elementos orgânicos, como você vê o link entre rock e pop com a música eletrônica?
Peter Hook -
Sim, quando nós fizemos era algo muito único. O Joy Division foi uma banda muito importante musicalmente e até hoje é influente. É maravilhoso que o New Order seja também uma influência para tantas bandas, e hoje em dia seja citado como o criador do indie dance rock - o que foi puramente um acidente, porque Bernard (Sumner, guitarrista) não conseguia tocar e cantar ao mesmo tempo, então a guitarra entrava quando ele terminava de cantar. E aquele elemento rock de usar o baixo acústico e as sequências... Foi algo muito novo que fizemos, e agora todo mundo faz. E funciona! Nós devíamos ter cobrado as pessoas desde aquela época (risos).

Terra - E como você vê a explosão da música eletrônica pelo mundo?
Peter Hook -
O ponto interessante é que a maior parte da música eletrônica hoje em dia é muito comercial, como uma imbecilização do house. Alguns caras transformaram o house em algo muito mainstream e comercial, mas ainda assim algumas coisas são boas, outras são terríveis. Pessoalmente, sou fã de caras como Tinie Tempah, Labrinth. É uma cultura muito concentrada em uma faixa, e não em um álbum - o que é diferente do meu tempo. Até gente como o Black Eyed Peas pode fazer bons singles, mas não conseguem fazer bons álbuns. Isso é triste, na verdade.

Terra - E os planos de fazer uma turnê tocando os primeiros álbuns do New Order pela Inglaterra?
Peter Hook -
Sim, eu gostaria de tocar todos os álbuns de que participei na vida. Será cronológico: vai começar com o primeiro single, Ceremony, e vai terminar em Blue Monday. Vamos tocar Temptation, Everything's Gone Green, Hurt... E todas desse período. É assustador, mas estou ansioso.

Terra - E o grupo será o mesmo (The Light) que fez a turnê de Unknown Pleasures (primeiro álbum do Joy Division) em 2010?
Peter Hook -
Sim, meu filho (Jack) vai tocar baixo e eu vou cantar. A banda fez um grande trabalho com as coisas do Joy Division, e as do New Order são um pouco mais complexas. Estou ansioso. Isso vai ser completamente louco! A primeira vez que eu tocar Blue Monday vai ser louca! Mas ficarei muito feliz em mostrar ao grupo que hoje em dia se chama de New Order que nós não somos a mesma coisa. Nós vamos fazer o mesmo que eles, mas eu não tenho a pretensão de usar o nome da banda. Acho muito triste que hoje em dia o New Order seja uma banda de tributo.

Terra - Bernard Sumner recentemente declarou que tem planos de fazer um novo álbum e sair em turnê com o New Order. Como é seu relacionamento com o resto do grupo e o que acha deles hoje em dia?
Peter Hook -
Eu não tolero o New Order por muitas, muitas razões. Do mesmo jeito que o New Order não seria o mesmo sem Bernard, não é o mesmo sem mim. E estou em conflito com o que eles estão fazendo. Mas é engraçado, acho que eu vou fazer um álbum do New Order. Acho que vou, no ano que vem! Bernard pode fazer, então eu também posso. Ou então, se ele gravar um álbum, talvez eu apenas aproveite e coloque o baixo nele. Não será algo do New Order com eles três fazendo. Como você pode perceber, nosso relacionamento é absolutamente inexistente, e eu ainda estou procurando uma solução legal para o problema. Nós somos homens crescidos e precisamos resolver nossas brigas. Os fãs não gostam disso, e os únicos que estão lucrando com essa história são nossos advogados, que estão enchendo os bolsos de dinheiro. É triste.

Terra - Mesmo com relação aos últimos álbuns do New Order com a formação completa, na década de 2000, você chegou a dizer que tinha reservas quanto a eles.
Peter Hook -
Na minha opinião eles foram super produzidos. É tudo uma questão de gosto, não? E eu acho que o meu gosto e o do Bernard mudaram muito. Gillian (Gilbert, tecladista) não teve nenhum envolvimento em Get Ready (2001) ou Waiting for the Sirens' Call (último álbum de estúdio da banda, de 2005), e Stephen (Morris, baterista) fez um pouco, mas fomos principalmente Bernard e eu. E é por isso que estou esperando ansiosamente pelo disco do New Order "deles", tão ansiosamente quanto eu estou esperando pelo "meu" disco do New Order. Você fica sem nenhum por séculos e então chegam dois de uma vez! (risos)

Terra - Peter, obrigado pela entrevista.
Peter Hook -
Apenas para encerrar, cara. Eles se chamarem por New Order hoje em dia me faz rir. Seria como se eu me chamasse de Joy Division. É estúpido.

Terra - É por isso que em seus shows você se apresenta como Peter Hook...
Peter Hook -
(interrompendo) ... E a banda The Light celebrando o Joy Division ou o New Order. E deveria ser: Bernard Sumner e The Dark (risos) celebrando o New Order.

O músico Peter Hook, ex-baixista de Joy Division e New Order, volta ao Brasil nesta semana como DJ para apresentações em Belo Horizonte e São Paulo
O músico Peter Hook, ex-baixista de Joy Division e New Order, volta ao Brasil nesta semana como DJ para apresentações em Belo Horizonte e São Paulo
Foto: MJ Kim / Getty Images
Fonte: Terra
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