TV

publicidade
27 de junho de 2010 • 10h05

Austríaco Hans Donner cuida da identidade visual da Globo há 36 anos

Hans Donner diz que seu trabalho deve ser muito invejado pro designers
Foto: Divulgação
 
Márcio Maio

A sala com vista deslumbrante para o Cristo Redentor que Hans Donner ocupa no edifício da Globo - no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro - arquiva uma parte da história da emissora. Repleto de maquetes, impressões, vídeos e arquivos digitais salvos em computadores e dispositivos portáteis, o espaço guarda uma "memorabilia" de mais de três décadas. E que parecem servir como prova, depois de tantos anos, que trabalhos históricos e lembrados até hoje foram desenvolvidos ali. Como as inesquecíveis aberturas do dominical Fantástico, feitas ao longo dos anos 70 aos 90, e até do programa Planeta dos Homens, que exibia um macaco descascando uma banana e dando de cara com uma mulher, em 1978. Ou ainda as 2.800 maquetes de prédios que, juntas, formavam a imagem do rosto de Tony Ramos em Selva de Pedra. "Foi uma época de ouro. Trabalhávamos sem preocupações com os gastos. Não havia crise", lembrou o diretor de arte, saudoso da liberdade financeira com que produzia seus trabalhos.

Além das verbas generosas, outro fator contribuiu para que os trabalhos de Hans Donner prendessem a atenção dos telespectadores. E que hoje, definitivamente, não teria espaço, por conta da classificação indicativa. "Se Tieta fosse ao ar hoje, jamais poderíamos exibir aquela abertura", lamentou Hans, lembrando um de seus trabalhos que valorizava o corpo da mulher. Um problema também enfrentado no Carnaval, que durante anos ficou marcado na tevê pelas vinhetas da "Globeleza" Valéria Valenssa, mulher de Hans. Mas o diretor de arte não ficou completamente livre da censura nas décadas de 70 e 80. E lembra bem de dois exemplos de trabalhos que precisaram de alterações. "Em Planeta dos Macacos, cobraram um biquíni maior na Wilma Dias. E tivemos problemas com Brega & Chique porque mostrávamos um rapaz sem roupa. Depois de tanto agradar aos homens, resolvemos presentear as mulheres ali", recordou.

Hans Donner diz que tem o emprego mais invejado por designers do mundo inteiro. E, por isso mesmo, se diverte quando ouve pessoas falando que a Globo deu um passo certo quando importou os serviços do alemão criado na Áustria. Principalmente porque Hans parece não se cansar de contar a longa história de sua contratação pela empresa. Uma negociação que não começou bem, mas foi a salvação para ele, um estrangeiro de 25 anos que um dia, ao ler uma matéria em uma revista alemã sobre o design publicitário apresentado no Brasil, decidiu se mudar para cá atrás de um emprego. "Fui levado por um amigo a uma sala e apresentado a um homem chamado Walter Clark. Eu não sabia quem ele era, mas depois descobri que ele mandava na Globo", rememorou Hans, referindo-se ao então diretor geral da emissora.

Foi na viagem de volta à Europa para legalizar sua permanência no Brasil, em um voo da Swissair, que Hans criou o que hoje é considerado seu grande marco: a logo da Globo. E garante que não teve grandes dificuldades para chegar na imagem do planeta dentro de uma tela de tevê que marcou toda a mudança de identidade visual da emissora que até então, segundo Hans, tinha "cara de circo". "Sempre trabalhei com terceira dimensão usando o claro e escuro. Foi o que fiz ali. E todos os meus trabalhos tinham círculos, globos, enfim, parecia que eu já trabalhava para a Globo antes de chegar à empresa", explicou Hans, que descobriu em seguida que o primeiro contrato de trabalho assinado - na época com uma empresa terceirizada que fazia as aberturas da Globo - era falso.

Em 36 anos de empresa, Hans já perdeu a conta de quantas obras desenvolveu. Mas sabe direitinho a quantidade de noites viradas por conta delas. "Já passam de mil. Ou seja, quase 10% do tempo que eu trabalho aqui", enfatizou. Nesse período, muitas coisas já aconteceram. Como o dia em que Hans precisou pedir para o âncora Cid Moreira, então apresentador do Jornal Nacional, para falar mais devagar. Tudo para que desse tempo de terminar a abertura da novela que estrearia naquele dia, O Rei do Gado, em 1996. "Mas aconteceram outros atrasos. A abertura de TV Pirata era meio autobiográfica, quando mostrava os piratas correndo e tentando a todo custo levar a fita para ser exibida na tevê. Minha rotina era essa", entregou.

Hans já fez aberturas completamente manuais e outras planejadas apenas em máquinas. E não se sente à vontade para enumerar as vantagens e desvantagens do uso da tecnologia. Mas em breve o diretor de arte deve encontrar essa resposta. Pela primeira vez em sua história de emissora, Donner vai fazer um remake de uma abertura sua. Trata-se de Ti-Ti-Ti, que está sendo reescrita por Maria Adelaide Amaral. "Naquela época, usávamos ímãs e fios invisíveis. Hoje, todo o trabalho está sendo feito nos computadores. No final, vamos ver se o processo manual faz muita diferença ou não", analisou.

Redação Terra