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Busca de Jack Bauer em '24 Horas' chega ao fim

25 mai 2010
22h23
atualizado às 22h31

A série 24 Horas chegou ao final na noite dessa segunda (24), com um momento insuperável de vingança: Jack Bauer (Kiefer Sutherland) se lança a uma última e catártica sequência de execuções comparável a cenas de Exterminador do Futuro ou dos filmes Desejo de Matar estrelados por Charles Bronson.

E o final representou um encerramento satisfatório para uma série repleta de suspense e violência que talvez tenha durado mais do que deveria, mas na qual a rede Fox jamais deixou de tentar superar as passadas realizações. A trama de 24 Horas foi mais densa nesta temporada do que na passada, e o retorno do deliciosamente vil ex-presidente Charles Logan (Gregory Itzin) também ajudou. Os episódios finais simplesmente deixaram de lado qualquer limite. Acabou a hesitação ética quanto a tortura e fazer justiça com as próprias mãos - a vingança passou a ser o tema, e Jack Bauer não hesita em desentranhar o assassino russo que matou sua amante, a fim de recuperar um chip de celular que continha provas essenciais.

Talvez porque uma versão da série para o cinema esteja sendo considerada, Bauer não morre no final; ele desaparece na clandestinidade, depois de derrubar mais uma presidência corroída e de salvar os Estados Unidos de um ataque nuclear.

E 24 Horas tampouco morrerá. A série vive como uma espécie de cápsula do tempo sobre a era posterior ao 11 de setembro. Um dos motivos de sua fama era o modelo de ação ininterrupta, com cada episódio cobrindo uma hora de um período contínuo de 24 horas, e um relógio na tela para marcar a passagem dos minutos. Mas talvez a série venha a ser mais lembrada por sua conexão com as realidades de uma era; 24 Horas foi ao ar inicialmente apenas dois meses depois dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, e durou o bastante para abarcar duas presidências e as invasões do Iraque e do Afeganistão.

24 Horas estendeu tanto os limites da credulidade do espectador quanto os da espionagem como gênero de TV. Sem jamais abandonar seus valores centrais de entretenimento, 24 Horas foi uma das poucas séries dramáticas a lidar de forma extensa - ainda que ocasionalmente caricatural - com as questões mais divisivas de uma era, do debate ético sobre a tortura ao papel das liberdades civis em tempo de guerra.

E o programa era levado a sério - e muitas vezes mencionado - pela linha dura do governo Bush e pela oposição progressista à guerra no Iraque; episódios e cenas foram exibidos em aulas em faculdades de direito e usados como base para paródias na Internet. A divisão em múltiplas telas nas imagens finais dos blocos foi amplamente imitada, por exemplo pela Keep America Safe, organização criada por Liz Cheney e outros, que aproveitou esse recurso gráfico do programa em um anúncio veiculado para criticar a resposta do governo Obama à tentativa de atentado contra um avião, em Detroit, no Natal de 2009.

Outras séries que tentaram imitar o sucesso - e a seriedade - de 24 Horas não conseguiram durar tanto tempo. Sleeper Cell, do canal Showtime, durou apenas duas temporadas, e The Unit, da rede CBS, foi cancelada ao final de quatro anos, porque os telespectadores optaram por seriados de espionagem mais irreverentes, a exemplo de Chuck e Burn Notice. (O seriado Alias, da rede ABC, que estreou pouco antes de 24 Horas, durou cinco temporadas, possivelmente porque percebeu as inclinações cada vez mais claras do público e adotou tom cada vez mais frívolo.)

24 Horas, que precisava esticar uma trama formada por traições e conspirações ao longo de 24 episódios por temporada, foi se tornando cada vez mais bizantino, e entre as subtramas da sétima temporada houve um ataque por mergulhadores africanos contra a Casa Branca, pelo sistema de encanamento. Em quase todas as presidências, existe na Casa Branca uma conspiração tenebrosa; por trás de cada cabala de extremistas islâmicos existe um grupo nebuloso de poderosos empresários ocidentais determinados a destruir a paz a fim de preservar sua prosperidade. Mas não importa o quanto as tramas se tenham tornado bizarras, a série sempre as tratou com seriedade.

A última temporada, ainda que igualmente absurda, parecia um pouco mais plausível que as precedentes. Começa com um ataque terrorista de extremistas islâmicos determinados a torpedear um acordo para eliminar a capacidade nuclear do Kamistão, um país do Oriente Médio parecido com o Irã e liderado pelo moderado presidente Omar Hassan (Anil Kapoor).

Naturalmente é preciso haver muito mais e, na temporada que se encerrou na segunda-feira, os roteiristas decidiram fazer dos russos os vilões, trabalhando com a ideia de que Moscou se sentia tão ameaçada pelo acordo nuclear que ajudou os terroristas a adquirir armas nucleares e também a assassinar o presidente Hassan. O complô pode parecer um tantinho exagerado, no mundo posterior à guerra fria. No entanto, o Reino Unido ainda não conseguiu obter a extradição do antigo agente do KGB que as autoridades do país acreditam responsável pelo uso de radiação para envenenar e matar Alexander Litvinenko, um antigo espião russo que desertou e atraiçoou seus comandantes. (O principal suspeito pelo crime foi eleito para a Duma, a Assembleia Legislativa russa, e com isso ganhou imunidade parlamentar.)

E não é um absurdo, do ponto de vista histórico, retratar presidentes norte-americanos como oportunistas, dispostos a optar pela conveniência em detrimento dos princípios. Nesta temporada, foi divertido acompanhar a presidente Allison Taylor em sua progressiva perda de retidão e coragem moral, dado seu desesperado esforço por manter em curso o tratado nuclear, especialmente quando passou a ser encorajada e coagida a agir dessa maneira pelo sibilino ex-presidente Logan. 24 Horas nunca foi uma série de grande imaginação no que tange ao desenvolvimento de personagens, mas Itzin empresta ao seu papel uma astúcia digna de Nixon e uma mistura de alegria e frieza reptiliana.

Só Jack Bauer - com a ajuda de sua fiel colega da Counter-Terrorism Unit, Chloe O'Brian (Mary Lynn Rajskub) - seria capaz de salvar o país da sinistra conspiração entre a Casa Branca e o Kremlin. É claro que Bauer tinha motivos pessoais para agir dessa maneira, a saber, vingar o assassinato de Renee Walker, a agente bonitona do Serviço Federal de Investigações (FBI) morta por um atirador clandestino russo momentos depois que ela e Jack haviam terminado de fazer sexo no apartamento deste.

Jack não expressa qualquer arrependimento ao decidir tomar a justiça em suas mãos.

"Eu teria aceito a justiça pelo caminho da lei, mas essa opção me foi roubada por pessoas como você", diz Bauer a um agente corrupto do FBI, contra o qual está apontando uma arma. "Por isso, você tem razão: eu sou o juiz e o júri".

24 Horas foi uma fantasia de ação e aventura retratada do ponto de vista da realpolitk, combinando perigos reais e presentes a uma trama tão emaranhada e absurda que os telespectadores jamais se sentiam muito distantes do simples entretenimento.

Ao final de oito temporadas, era mais que hora de Jack Bauer partir. Mas a série se encerrou da maneira mais correta: deixou os telespectadores pedindo por mais.

Tradução: Paulo Migliacci

'24 Horas' teve último episódio exibido no domingo (23), nos EUA
'24 Horas' teve último episódio exibido no domingo (23), nos EUA
Foto: Divulgação
The New York Times
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