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19 de maio de 2011 • 11h03

Há 20 anos, a ousada 'O Dono do Mundo' estreava na Globo

Glória Pires e Kadu Moliterno interpretaram Stella e Rodolfo, personagens que engataram um romance no meio da trama
Foto: TV Globo / Divulgação
 
Geraldo Bessa

No início dos anos 90, a TV brasileira passava por um momento de transição. A novela ainda estava entre os principais hábitos do público, mas a hegemonia da Globo estava ameaçada por produções como Pantanal, da extinta Manchete. Com o objetivo de encerrar as oscilações de audiência, em janeiro de 1991, a emissora decidiu levar ao ar a novela O Dono do Mundo, segunda parte de uma trilogia criada por Gilberto Braga - iniciada com Vale Tudo, de 1988, e completada por Pátria Minha, de 1994 - sobre honestidade e corrupção. O grande problema de Gilberto foi a concorrência direta com Carrossel, novela infantil mexicana exibida pelo SBT. "A reação do público é sempre uma incógnita", acredita o autor.

No início, a novela mostra o repentino envolvimento da professora Márcia, de Malu Mader com o cirurgião plástico Felipe Barreto, de Antônio Fagundes. Márcia estava de casamento marcado com Walter, de Tadeu Aguiar, um dos funcionários da clínica de Felipe. Durante o casamento dos dois, ao saber que Márcia é virgem, Felipe faz uma aposta com Júlio, de Daniel Dantas, dizendo que vai levar a moça para a cama antes do noivo. "Não fiz muitos vilões na carreira, mas esse valeu por vários", brincou Fagundes. Como resultado da aposta, os dois são flagrados na cama pelo noivo e Márcia inicia sua trajetória de dificuldades e humilhações, com a morte de Walter e a indiferença de Felipe. Enquanto, a traição distanciava a mocinha do público, Fagundes imprimiu charme às crueldades cometidas pelo vilão, que acabou tendo boa aceitação. "Com a rejeição da protagonista pelo público, descobri que naquele momento do país, a virgindade ainda era um tabu", analisou Gilberto.

A baixa popularidade da heroína da trama fez com que a emissora interferisse na história e Sílvio de Abreu foi chamado para ajudar na concepção dos capítulos. Com as mudanças, as nuances entre o bem e o mal ficaram mais nítidas e a novela ganhou agilidade. A partir daí, Márcia arma uma vingança implacável contra Felipe, mas acaba apaixonando-se por ele no meio do caminho. Mesmo assim, a personagem continuou sendo alvo de rejeição. "Eu era muito nova e a personagem não foi bem aceita. Sofri um pouco com isso, mas consegui segurar a onda", admitiu Malu. Outra estratégia foi atenuar as maldades de Felipe. Além disso, o vilão foi abandonado pela mulher, Stella, de Glória Pires. Separada, a personagem caiu no gosto popular ao se envolver com Rodolfo, papel de Kadu Moliterno. "Essas alterações acontecem em qualquer tipo de trabalho. O importante é o resultado final e a novela conseguiu ter uma reação a tempo", garantiu o diretor Dennis Carvalho.

O fato é que as mudanças feitas pela cúpula da Globo surtiram efeito. A novela teve uma melhora significativa de audiência, com média final de 48 pontos. Entre as medidas, houve um aumento da participação de outros personagens, como a megera Constância Eugênia, de Nathália Timberg, e a divertida socialite Karen, de Maria Padilha. Além da história de amor entre a prostituta Taís, da estreante Letícia Sabatella, e o correto Beija-Flor, de Ângelo Antônio. O romance, embalado pela canção Codinome Beija-Flor, de Cazuza, interpretada por Luiz Melodia, ganhou o país. E a relação entre os intérpretes ultrapassou o profissional. A partir da novela, Letícia e Ângelo ficaram casados por 12 anos. "Foi impressionante. Tinha acabado de sair de Pantanal e não esperava ter outro momento marcante tão rápido. Tudo contribuiu: a história dos personagens, a música, a química", ressaltou Ângelo.

O núcleo protagonizado pelo casal ainda daria repercussão ao vilão Ladislau, de Tuca Andrada. Estreante em novelas, Tuca deu vida ao bandido que tenta atrair Beija-Flor para o mundo do crime. "Era um personagem pequeno e foi crescendo com o desenvolvimento da trama", relembrou Tuca. Já Stênio Garcia surpreendeu na pele do milionário Herculano Maciel, um dos pretendentes de Márcia. "A novela me deu a oportunidade de interpretar um tipo diferente do que eu vinha fazendo", defendeu Stênio.

Apesar dos tropeços iniciais, vintes anos depois da estreia, O Dono do Mundo não chega a ser lembrada como um grande sucesso, mas garantiu boas atuações, abertura antológica - baseada em uma cena do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, embalada pela canção Querida, de Tom Jobim - e uma das mais criativas histórias de traição da teledramaturgia nacional.

TV Press