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09 de agosto de 2012 • 10h39 • atualizado às 11h24

Jonas Bloch sobre saída da Globo: "Ficou alguém lá para apagar a luz?"

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Foto: Luiza Dantas/Carta Z Notícias / Divulgação
Mariana Trigo

Jonas Bloch é daqueles atores que ri com os olhos enquanto conversa. Por isso se difere tanto da maioria de seus personagens na tevê, quase sempre vilões. Como o misterioso Big Blond, o poderoso chefão da máfia de Máscaras, da Record, Jonas interpreta um homem que alterna sua bipolaridade com a paixão explícita por Eliza, protagonista vivida por Paloma Duarte. Sobre a antiga emissora, a TV Globo, Jonas brinca: "Ficou alguém lá para apagar a luz?".

Com inacreditáveis 73 anos de idade, este ator mineiro, descendente de judeus ucranianos, pai da atriz Débora Bloch e sobrinho neto de Adolpho Bloch - fundador da extinta Manchete - percorreu diversas emissoras em seus 54 anos de profissão. Tamanha dedicação à carreira deixou marcas no diretor e ator, que pensa em se aposentar em breve.

"Quero colocar o pé no freio, escolher melhor e dizer mais 'nãos'. Mas gosto da profissão. Ainda fico excitado quando entro no estúdio", afirma, apertando os olhos azuis pouco antes de avaliar seus seis anos na Record.

"Quando cheguei na emissora e vi todo o elenco que era da Globo, falei: 'ficou alguém lá para apagar a luz?'", diverte-se Jonas, com seu "physique du rôle" do Leste europeu, que definiu grande parte de seus personagens na tevê. "Se a história se passava no Nordeste ou se tinha algum sinhozinho, eu estava fora", admite, aos risos.

Veja a entrevista na íntegra:

TV Press - O Big Blond é um dos muitos vilões que você já viveu na tevê. Como você o diferenciou para não cair no lugar-comum?
Jonas - No início eu estava preocupado se ele seria um vilão igual aos outros. Mas percebi que não era e isso me agradou muito. Ele é um vilão apaixonado pela Eliza (personagem da Paloma Duarte), tem sonhos internacionais, é um outro tipo de malvado. Pensei em começar a fazê-lo mais racional, mais frio. Em televisão é assim: você inicia de um jeito e logo vem o autor e o diretor modificando. Mas ele acabou virando um personagem emocional, sanguíneo e calculista. O Lauro César tem uma tradição de dramaturgia muito grande e fez uma proposta muito interessante para o Big Blond, totalmente fora dos padrões de televisão. Ele acaba sendo um galã. Tem um envolvimento político e aborda questionamentos distantes do universo dos personagens de televisão usando metáforas. Ele quebra um pouco os clichês das novelas e seus estereótipos.

TV Press - Você define o Big Blond como um poderoso chefão. Teve alguma inspiração na trilogia do Francis Ford Coppola?
Jonas - Acho que não. Cheguei a conversar sobre isso com o autor e diretor, mas criamos um personagem próprio, realmente diferente de todos os vilões que fiz, principalmente na Record, que eram empresários e grandes canalhas. Esse é uma mistura. Fico surpreso porque o público gosta muito dele. Percebo pelos meus colegas da novela, que dizem que o Big Blond é sempre assunto nas redes sociais.

TV Press - Como foi essa composição?
Jonas - De muitas formas. Mas os autores costumam dizer que tem uma hora que os personagens falam sozinhos. Você não precisa mais criar. Comecei a fazê-lo como uma pessoa bipolar, que tem rompantes. Cheguei a gravar cenas assim, em que ele estava em um estado e, de uma hora para outra, tinha uma explosão. Depois ele ficou mais comedido. Agora ele passa por uma série de transformações, ganha e perde poder. Isso é bem interessante porque não é monocórdio. Ele é um vilão apaixonado, que é capaz de fazer loucuras pela mulher. Isso é uma coisa rara na vilania.

TV Press - Já que você "coleciona" vilões na tevê, a que atribui tantas escalações voltadas para a maldade?
Jonas - Mas também já fiz homens bons! (risos). Os meus vilões realmente são mais marcantes. As pessoas sempre lembram mais deles. Fiz desde o bandidão barra pesada em Corpo Santo (na extinta Manchete), como fiz um canalha em A Viagem. Com a idade, você vai fazendo mais empresários, caras poderosos. Mas eles são muito interessantes. Têm um fogo de ambição e poder que gera interesse no público. Alguns eu tento fazer maus mesmo. Na época que fiz o Russo, do Corpo Santo, que foi um sucesso imenso, havia uma glamourização da bandidagem. Um marginal foi fotografado e virou capa de revista. A tendência, até pouco tempo atrás, era mostrar que o herói do garoto do morro era o traficante. Depois que houve aquela invasão às favelas no Rio de Janeiro, em que os bandidos saíram com o rabo entre as pernas, os heróis passaram a ser os caras do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais). As pessoas realmente têm de ter antipatia pelo comportamento dos vilões. O vilão tem um egoísmo exacerbado e doentio. Ele é capaz de matar, de qualquer coisa para obter o que quer. São obsessivos e não têm humanidade alguma.

TV Press - Você começou a gravar Máscaras com a direção do Ignácio Coqueiro, mas há quase dois meses o Edgard Miranda passou a dirigir a trama. De que forma essa alteração refletiu no elenco?
Jonas - Eu já tinha trabalhado com o Ignácio na Globo em Mulheres de Areia, A Viagem e Malhação. Ele é um querido, um diretor competentíssimo. O Ignácio passou por vários problemas difíceis nessa novela. Tinha de gravar em um navio com passageiros. Você não pode pedir para uma pessoa que pagou por um cruzeiro ficar quieta porque vai ter uma gravação. Isso gerou uma tensão grande e muita pressa em fazer. Não dava para cumprir os prazos e ele não conseguiu fazer o trabalho como gostaria. Quando pintou a crise, que existe em qualquer emissora, ele foi escolhido como responsável. Não quero fazer julgamento nenhum, mas ele é um grande diretor e ser humano. Isso é um dos privilégios na Record. Os diretores são como amigos. Conversamos muito sobre vida pessoal, almoçamos juntos, temos uma relação gostosa.

TV Press - Na Globo não era assim?
Jonas- Nem sempre. Na Record não tem nariz empinado, gente achando que o poder faz dele um ser especial. O Edgard (Miranda) é outro querido e supertalentoso. Veio com uma responsabilidade grande. Encontrou um suporte e uma trama mais estruturada para trabalhar. Está fazendo um trabalho muito bonito. Com essa crise toda, todo mundo tentou dar uma ajeitada para melhorar a qualidade. Fomos discutir erros e não passamos recibo que a novela é ruim. Ela não é ruim! Começou confusa para o grande público e foi sendo consertada. Hoje o assédio nas ruas é impressionante. A imprensa falou mal da audiência como se manter o ibope às 23h30 fosse a mesma coisa que às 21h00.

TV Press - A Record já deu dois dígitos nesse horário com Os Mutantes.
Jonas - Se formos avaliar a qualidade artística de um trabalho pelo ibope, o que falamos do Big Brother Brasil? Porque aquilo tem audiência! O Van Gogh seria um pintor de segunda categoria porque não vendeu quadros quando era vivo? Isso é uma coisa ridícula. Falam que um filme rendeu não sei quantos bilhões. E, às vezes, o filme é uma porcaria! Tem hora que isso enche o saco. Nessa novela, o elenco chegou a fazer uma carta tentando ser o mais diplomático possível. Dizemos que acreditávamos nesse trabalho. Assumimos que ele tem coisas criticáveis, mas a novela é muito boa e tem muita gente que me aborda. Não é possível que seja uma novela que ninguém vê. Isso não é verdade. E se ninguém vê, isso não quer dizer que ela seja ruim.

TV Press - Que diferenças na trama você destaca com a entrada do Edgard?
Jonas - Estamos com pessoas na edição da novela que fazem milagres. A equipe deu uma melhorada. Tem um novo conceito de luz. O Edgard é muito caprichoso. Fizemos uma cena de tiroteio na praia e levamos três dias gravando, mesmo com a novela atrasada, para você ver o capricho que é. Na minha carreira, já vi fechar a TV Rio, Excelsior, Tupi, Manchete, um monte de emissoras. Não é justo que a imprensa queira demonizar a Record. É uma empresa que investiu muito, contratou todo o pessoal da Globo, está fazendo um trabalho bom. Ainda estão aprendendo e vão descobrir o caminho das pedras aos poucos. As pessoas têm uma expectativa de êxito na Record como se fosse a Globo, que está há 50 anos estruturada no mercado com toda a competência. A Globo deve ser aplaudida de pé também. Quando não tinha concorrência nenhuma, fazia um padrão de qualidade lá em cima.

TV Press - Que balanço você faz da sua carreira desde a estreia em 1958? São 54 anos de tevê desde o início no programa Câmera 1, na Tupi.
Jonas - Eu era um menino. Era aluno da Fundação Brasileira de Teatro e adorava o programa Câmera 1. Um dia, entrei em uma lotação e quem estava lá era o Jacy Campos, diretor e apresentador da produção. Quando descemos da lotação, estava chovendo e eu tinha um guarda-chuva. Não aguentei, ofereci carona e disse: "Sou fã do seu programa e aluno de teatro". Na mesma hora ele disse que estava precisando de um garçom alemão e queria que eu o fizesse na outra semana. Fiquei dois anos no programa. Um dia, ele me ligou e disse: "Essa semana, você vai ser o papel-título do programa". Avisei a escola inteira, meus amigos, minha família, todo mundo. Fui pegar o texto e o título era "A Morte do Estafeta" (risos). Antes mesmo de entrar o letreiro, eu vinha em uma bicicleta, atravessava um caminhão e morria (risos).

TV Press - O que mais marcou você nessa trajetória com mais de 30 novelas?
Jonas - Tive um problema inicial com televisão. Tive uma formação muito intensa no teatro com o pessoal da antiga. Muita gente vinha do rádio, das telenovelas mexicanas, dos dramalhões. O teatro exige uma impostação de voz mais alta. Para televisão e cinema, essa característica não é boa. Por isso, perdi muitos papéis. Tive uma luta muito grande para procurar algo menos impostado. Isso foi um dos problemas do início da minha carreira que me marcou muito. Sabia que era uma questão de ajustes e, lamentavelmente, 98% dos diretores não trabalham atores. Bastava algum diretor me dizer para fazer "menor". Mas não. Simplesmente falavam que eu não servia. Tem muito diretor inseguro para explicar porque o ator não serve, pois a maioria não tem formação de ator. Hoje em dia tem gente mais esperta e sintonizada. Os atores brasileiros têm uma qualidade diferenciada. Temos uma naturalidade inata nas artes, uma maneira de expressão mais viva, intuitiva e menos técnica. Isso fica mais caloroso na tela. Não é à toa que exportamos novelas para o mundo inteiro.

Inspirações talhadas
Há exatos 40 anos Jonas Bloch começou uma carreira paralela à de ator. Formado em 1972 em Belas Artes pela UFMG, ele também cursou Artes Visuais e, desde então, traça um outro caminho artístico ao longo das últimas décadas. Quando não está em estúdios, sets de filmagem ou nos palcos, certamente o ator está pensando em seus desenhos ou nas esculturas de pedra sabão, resina ou silicone de figuras circenses e dançarinas. "Quero saborear o tempo de vida que me resta me dedicando mais a esse trabalho", observa.

Seus trabalhos são vendidos em um pequeno bistrô em Minas, onde permanecem suas raízes desde que saiu de Belo Horizonte, sua cidade natal, para começar a carreira de ator. "Não vendo as peças profissionalmente. Quando vejo que alguma escultura não está tão boa, coloco uma assinatura falsa", assume, aos risos.

Mestre exigente
Para Jonas Bloch, o palco pode estar em uma sala de aula. Muitas vezes o ator atuou como professor de faculdades renomadas, como a USP. Professor de Artes Cênicas durante anos, Jonas foi mestre de grandes nomes da televisão, como Paulo Betti e Eliane Giardini, entre outros, que foram seus alunos na USP. "Só gosto de dar aula para alunos apaixonados. Não gosto de aluno mais ou menos, de gente que quer virar ator para aparecer na televisão. Isso não me interessa. As pessoas querem fazer ceninhas, não querem atuar, aprender", critica.

Trajetória Televisiva
Câmera 1 (Tupi, 1958) - diversos personagens, dentre eles, no episódio A Morte do Estafeta
Algemas de Ouro (Record, 1969) - participação
Canção para Isabel (Tupi, 1976) - participação
Sem Lenço e Sem Documento (Globo, 1977) - Jacques
Pai Herói (Globo, 1979) - Rafael
Olhai os Lírios do Campo (Globo, 1980) - Simão
Sétimo Sentido (Globo, 1982) - JaimeNovo Amor (Manchete, 1986) - Mário
Corpo Santo (Manchete, 1987) - Russo
Olho por Olho (Manchete, 1988) - FloresTop Model (Globo, 1989) - JacquesMulheres de Areia (Globo, 1993) - Walter
A Viagem (Globo, 1994) - Ismael
Irmãos Coragem (Globo, 1995) - Siqueira
Quem é Você (Globo, 1996) - Sacha
Perdidos de Amor (Band, 1996) - Quintino
Malhação (Globo, 1998) - Tatuí
Pecado Capital (Globo, 1998) - Altino
Garret (RTP, 2000) - Dumond
O Quinto dos Infernos (Globo, 2002) - Francisco I, Imperador da Áustria
Jamais Te Esquecerei (SBT, 2003) - Antônio
Os Ricos Também Choram (SBT, 2005) - Antônio
Bicho do Mato (Record, 2008) - Ramalho
Amor e Intrigas (Record, 2009) - Camilo
Bela, A Feia (Record, 2010) - Ricardo
Máscaras (Record, 2012) - Big Blond

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