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Mion sobre obrigação de ver reality: "chego ao ponto de não querer fazer"

Em entrevista, apresentador do 'Legendários' afirma que tempo diário gasto com 'A Fazenda' é desgastante; reality é tema de seu principal quadro

8 ago 2013
16h02
atualizado às 16h52
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Aquilo que começou como uma brincadeira hoje é a marca registrada de uma bem-sucedida carreira na televisão. Em 2000 com o extinto Piores Clipes do Mundo, atualmente com o Vale a Pena Ver Direito, Marcos Mion se tornou sinônimo do crítico bem humorado de clipes e programas de TV, que foca em produções e em seus protagonistas para apontar falhas, momentos engraçados e constrangimentos. Foi o que o levou à Bandeirantes, em 2000; é o que o mantém há quase quatro anos na Record. Mas o trabalho, de aparência improvisada, demanda tempo, paciência. É muito mais estafante do que parece.

<p>O apresentador do Legendários durante entrevista ao Terra, na semana passada, na TV Record</p>
O apresentador do Legendários durante entrevista ao Terra, na semana passada, na TV Record
Foto: Bruno Santos / Terra

Desde junho, por exemplo, a rotina noturna de Mion tem sido acompanhar diariamente a exibição de A Fazenda, temática-base do principal quadro do Legendários durante toda a exibição do reality show. O compromisso o obriga a assistir a um mesmo capítulo da atração diversas vezes, para analisar, fazer anotações das cenas mais bizarras, decupá-las e, por fim, editá-las para serem exibidas no programa que apresenta desde 2010 nas noite de sábado da TV Record. "Eu fico assistindo por horas e horas. Chega ao ponto de eu não querer fazer mais. Mas eu preciso, porque é minha marca registrada", diz o apresentador de 34 anos em entrevista exclusiva Terra, concedida na emissora na última quarta-feira (31).

<p>Apresentador acompanha quadro ao lado de Juju Salimeni</p>
Apresentador acompanha quadro ao lado de Juju Salimeni
Foto: Bruno Santos / Terra

A correria é grande. A conversa foi marcada para depois do almoço, entre as gravações do quadro e da edição do próximo dia 17 de agosto do programa. O planejamento das filmagens atrasa, e a reportagem é solicitada a esperar. "Ele é muito perfeccionista. Não deixa passar nada, volta a cena, analisa a luz", explica a assessora pessoal de Mion. Ela exemplifica a característica que mais exalta de seu cliente citando a recente imitação de Anitta feita por ele no quadro Micover, originário dos tempos da MTV, no qual imita, take por take, cenas de clipes musicais, principalmente gestos e expressões dos artistas. "Foram mais de cinco horas gravando, sendo que o vídeo final que foi ao ar tinha um pouco mais de um minuto. Ele só para quando o negócio está como ele quer."

Além da insistência nas performances dos quadros autorais, há outros obstáculos que dificultam o manuseio de seu tempo. Primeiramente, porque Mion não se limita à apresentação do Legendários. O ex-VJ, revelado pela MTV nos tempos em que a emissora ainda se dedicava à música, possui também a função de diretor criativo da atração, o que significa, além de elaborar ideias para seus quadros, planejar o andamento do programa, orientar a equipe, supervisioná-la. Pela responsabilidade que assumiu para si de fazer um trabalho com a sua cara, também cuida da edição de vídeos, decupagens, entre outras funções. 

"No começo do programa eu não vivia, porque cuidava também da direção", ameniza o apresentador, atualmente com profissionais exercendo a função. O discurso é acelerado, porém bem articulado. Ele continua: "mas, durante um ano, eu praticamente não vivi. Antes eu não tinha um cabelo branco, uma barba branca, nao tinha nada, eu era uma pessoa jovem, disposta", diverte-se. "Aí, graças a Deus, depois de um tempo, eu conheci o Cézinha (o diretor Carlos César Filho, desde setembro de 2010 na atração), ele quis vir e se tornou a melhor parceria que tive na minha vida." 

A produção realmente demanda tempo. Só de estúdio, onde são gravados os quadros com presença de plateia, são reservadas mais de cinco horas semanais, já que a montagem do cenário começa antes do horário previsto, de 16h. Erros não são permitidos. Com o ponto sempre no ouvido, Mion entra e sai do palco, com ares de produtor. O restante do enxuto elenco - o Legendários teve seu número de participantes reduzido de 17 para seis pessoas da primeira temporada para a atual - aguarda, faz pose, repassa uma cena ou outra. 

<p>Mion exaltou valores da família na entrevista</p>
Mion exaltou valores da família na entrevista
Foto: Bruno Santos / Terra

O público, formado majoritariamente por adolescentes barulhentas, não para. "Mionzinho, Mionzinho", entoam a cada pequeno intervalo, aos berros, algumas meninas em direção a Victor Rodrigues Coelho, intérprete do cover de Marcos Mion desde 2005. Ele caminha de um lado para o outro do cenário em silêncio, observando a movimentação à sua volta. Por vezes, atende simpaticamente aos pedidos por fotos e autógrafos das jovens fãs.

Enquanto isso, o Hulk Magrelo, versão caricata do super-herói da Marvel Comics vivida por Will Paes, faz pose em um canto, alheio aos gritos; calada, Juju Salimeni se mostra um tanto tímida, talvez desinteressada, ao fundo, mexendo intermitentemente em seu aparelho celular. "Se ele não quer tirar problema dele", responde de forma um tanto ríspida o anão Nestor, talvez irritado pelo fato de ter sido chamado por um pequeno grupo de jovens apenas para pedir pela aproximação de Blade, sujeito musculoso cujo personagem permanece ao longo de toda a gravação apenas de toalha, agradando a ala feminina do auditório. O baixinho sai andando, sem dar mais explicações.

"A Thais entrou no programa após uma participação no ano passado e deu tão certo que ela acabou ficando", frisa uma assessora da Record no momento em que a dançarina, que completa o elenco, retorna ao estúdio para finalizar as filmagens de mais um de seus desafios, nos quais apresenta coreografias de canções de sucessos ao lado de um grupo de profissionais. A jovem, proprietária de um estúdio de dança no Rio de Janeiro, se destacou no Legendários pelos intrincados passos - que incluem o desafiador espacate - a despeito do óbvio excesso de peso.

Mion divide a concentração entre os bastidores e as filmagens. Ignora os gritos do público, tão barulhentos que obrigam os funcionários a utilizar fones de ouvido ao longo de todo o processo de gravação, além de praticamente impossibilitarem a identificação do áudio dentro do estúdio, mesmo em momentos como as entrevistas com a dançarina ou com alguma atração musical do dia - na ocasião, o pagodeiro Belo.

<p>Mion simula striptease durante gravação do 'Legendários'</p>
Mion simula striptease durante gravação do 'Legendários'
Foto: Bruno Santos / Terra

"Eu não sei fazer de outra forma que não seja participando de todos os estágios", o apresentador explica. "O projeto é autoral e, se eu tive essa oportunidade única, essa chance maravilhosa de poder implementar algo próprio, então preciso ter uma relação muito próxima com a produção toda. Sou o pai dessa criança, então, para o bem ou para o mal, eu que respondo por tudo o que ela faz. Não sei fazer de outra forma a não ser estando presente em todos os aspectos da atração."

Além disso, o programa é cada vez mais focado no apresentador, estratégia positiva responsável por inflar sua audiência, atualmente consolidada na vice-liderança da TV aberta. No início, a função de Mion nas telinhas era principalmente ser uma espécie de mestre de cerimônias de cada um dos quadros, esquetes e matérias, produzidos por cada um dos antigos integrantes do programa - entre eles a trupe de humor Hermes e Renato e o também ex-MTV João Gordo. Hoje, acompanhado por um elenco que em geral cumpre o papel de figuração, é o protagonista tanto pelo material feito no cenário quanto pelo gravado nas externas.

"A ideia original era com todo aquele elenco, tanto que demorei de três a cinco meses para fazer o primeiro Vale a Pena Ver Direito. Mas, mesmo quando tínhamos aquele pessoal todo, todo ele foi chamado por mim pensando no que poderia oferecer aos temas que eu queria abordar. Todos os roteiros de quem gravou algo, se eu não escrevi, aprovei; na edição, dei o toque final em todas as matérias. Então sempre me senti representado no ar", se defende. "Só que um dia a Record virou pra mim e disse, 'e aí? A gente contratou você, então queremos ver as coisas que você faz'". Mion solta uma risada de satisfação.

Naturalmente, tamanha responsabilidade acaba pesando no cotidiano. Mesmo com a contratação de um redator - "o primeiro que tive na vida" - para ajudá-lo na escolha do material a ser editado e na sua posterior decupagem, Mion ainda precisa estar sempre presente. Não basta apresentar, é preciso se envolver em todos os aspectos da atração. O que acaba limitando certos prazeres, frutos de uma maturidade precoce acompanhada pelo sucesso logo no início da vida adulta. Casado há oito anos com a estilista Suzana Gullo, o apresentador é hoje pai de três filhos, função da qual se recusa a abrir mão.

<p>Mion apresenta atração diante de platéia adolescente e barulhenta</p>
Mion apresenta atração diante de platéia adolescente e barulhenta
Foto: Bruno Santos / Terra

Assim, Mion é levado a fazer algumas "loucuras" para aliar os compromissos profissionais aos pessoais. Um belo exemplo disso é uma atividade que anualmente faz em julho, mês em que realiza viagens semanais a Miami, onde possui residência, com o único objetivo de passar parte do período de férias escolares com a família, e de onde retorna ao menos uma vez por semana ao Brasil, pois precisava seguir gravando o Legendários. "Muita gente fala, 'você é louco! Vai quando for tirar férias!' Mas, poxa, eu nem sei quando vou tirar férias aqui. É uma coisa sem previsão. E sou um cara que acredita muito que a missão de um homem que quer construir uma família é justamente a família. Então, para mim, ser um pai presente é a coisa mais fundamental", justifica.

Mas Mion não reclama. No máximo, dá risada das cada vez maiores responsabilidades que vem assumindo em sua vida. Não por acaso. Em menos de 15 anos, o apresentador conseguiu realizar o sonho de adolescência de trabalhar na MTV, formou família e solidificou o nome no mercado de uma forma que jamais imaginou. "Quando o Gugu chegou para mim (no início da década e 2000) e falou, 'morro de rir com o que você faz, você é muito bom', foi um divisor de águas. Eu pensava, 'não to acreditando que isso tá acontecendo comigo'", recorda. "Ouvir tudo aquilo me fez pensar, 'acho que isso aqui é um negócio que pode dar certo. Dito e feito: são 13 anos de uma ideia de brincadeira que tive aos 20 anos de idade que hoje paga o almoço, a janta e cria as crianças". Ele ri.

Fonte: Terra
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