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08 de janeiro de 2012 • 13h49 • atualizado às 13h54

Na TV há 35 anos, Chico Pinheiro não gosta de se ver no vídeo

Atualmente Chico Pinheiro está no comando do Bom Dia Brasil
Foto: Luiza Dantas / Carta Z Notícias / TV Press
Geraldo Bessa

Chico Pinheiro se define como um contador de histórias. Sem cerimônias e com invejável animação, o atual apresentador do Bom Dia Brasil deixa essa característica bem evidente ao contar os as vivências dos seus mais de 40 anos dedicados ao jornalismo.

"Já fiz de tudo um pouco nessa área. Desde assessoria, passando pela chefia de reportagem. Até chegar ao vídeo e entrevistar. Gosto de entrevistar, tenho muita curiosidade e adoro bater um papo", admite Chico, que está há 35 anos na televisão e diz que até hoje não gosta de se ver no vídeo. "Não gosto de me ver. Às vezes assisto, mas não para me avaliar, e sim para curtir as apresentações do programa", conta ele, que também apresenta o Sarau, programa de música e entrevista da Globo News.

Nascido em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, Chico é mas conhecido por suas "mineirices" - no jeito e no sotaque - e devoção ao Atlético Mineiro. "Nasci no Sul por acaso. Fui para Minas Gerais aos 3 meses de idade", explica. Além de carregar a bandeira de Minas, é pública a paixão do jornalista, de 59 anos, por música popular brasileira - em especial pelo samba. Essa ligação pode ser vista no Sarau.

Formado pela PUC de Minas, Chico começou a carreira no Jornal do Brasil no início dos anos 70, até que surgiu a oportunidade de ser chefe de reportagem da Globo Minas. "Era para trabalhar na cozinha, não para aparecer no vídeo. Eu era um faz-tudo na emissora", lembra. A experiência nos bastidores levou o jornalista para a frente das câmaras e bancadas dos principais telejornais de emissoras como Band, Record e Globo.

Desde 1996, Chico está de volta à Globo e estava há 14 anos à frente do SPTV 1ª Edição. No ano passado, foi chamado para substituir Renato Machado no comando do Bom Dia Brasil, onde está no ar há quatro meses, ao lado de Renata Vasconcellos. "O jornal matutino é carregado de notícias trágicas sobre economia, sociedade etc. Temos a missão de informar, mas de um jeito que o público se sinta bem", acredita.

TV Press - Você estava no 'SPTV 1ª Edição' - jornal local de São Paulo - desde 1998. Como encarou o chamado para apresentar o 'Bom Dia Brasil'?
Chico Pinheiro -
Foi uma grande surpresa. Acho que isso aconteceu em um bom momento. Pois estava muito acomodado na minha função em São Paulo. Para mim, meu destino estava traçado: ficar fazendo o SPTV para sempre (risos). Mas a verdade é que eu não estava querendo mudar, queria era ficar quietinho, no meu canto, com a vida toda organizada.

TV Press - Mas com a saída do Renato Machado, você teve de deixar sua zona de conforto. A troca de cidade o incomodou?
Chico Pinheiro -
Não, pois o Rio de Janeiro não é nenhuma novidade para mim. Há mais de 10 anos eu frequento o Rio quase toda semana. Seja para fazer o plantão do Jornal Nacional, que, ultimamente, estava apresentando todos os sábados. Ou para gravar o Sarau. Isso me faz íntimo da cidade. Sempre estive pelo Rio. Principalmente, na época do Carnaval, para visitar as quadras das escolas de samba, os barracões e meus muitos amigos "bambas". É um território conhecido.

TV Press - O telejornal vai ao ar, de segunda a sexta, às 7h30. Como esse horário afeta sua rotina?
Chico Pinheiro -
É igual a você ir trabalhar no Japão e alterar seu fuso horário. Mas não tem muito do que reclamar, é só acordar na hora que o despertador me chama. Acordo antes das 4h, chego na emissora às 5h e já tem um monte de gente trabalhando. Essa é a rotina do brasileiro. Não tenho que ser tratado de maneira diferente. Todos os dias, quando acaba o Bom Dia Brasil, temos uma reunião de pauta que vai até as 11h30. Depois disso, parto para cuidar dos meus outros projetos e das coisas da minha vida: pagar contas, rever amigos etc.

TV Press - O Renato Machado tem linguagem e postura bem particulares e ficou 15 anos à frente do 'Bom Dia Brasil'. Sentiu algum receio de rejeição ou comparação?
Chico Pinheiro -
Não, pois o caminho é o mesmo. O que muda é o jeito de entregar a notícia ao público. O Renato tem um jeito único de se expressar. Já quis caminhar igual a ele. Quando o vi apresentado um jornal pela primeira vez, achei genial como ele conseguia ser direto, íntimo e elegante. Sem demagogia, em termos de preparo intelectual, ele está lá na frente (risos). Não sei se agrego alguma coisa, mas o jornal muda, fica diferente. Quem pode dizer se aumenta ou diminui algo é quem assiste.

TV Press - A audiência do 'Bom Dia Brasil' vem caindo ao longo dos anos. Acha que seu tom mais popular e coloquial pode ajudar o telejornal no ibope?
Chico Pinheiro -
Em termos de audiência, o Bom Dia Brasil é o noticiário mais importante da manhã brasileira. E, independentemente do apresentador, a matéria-prima continua sendo a notícia. Em um jornal, é inevitável falar de certas coisas: assaltos, denúncias de quadrilhas dentro da Polícia Militar, aumento dos preços! É tanta noticia ruim que o cara não quer nem sair de casa. Quero levar o público para a luta. Por isso, chego aqui cheio de pilha, fazendo barulho, gritando e querendo acordar o ser interior da redação inteira. Quero provocar riso nas pessoas que fazem o jornal e em quem assiste. Fico com medo dessa comparação com o Renato. Ele capta as coisas finas da arte, da música. Ele é mais Mozart e eu sou mais Bach. Sou mais barroco, mineiro e povão.

TV Press - Você já teve de conter algum exagero para apresentar telejornais?
Chico Pinheiro -
Tem de ter bom senso. Cada jornal tem seu formato pré-definido. Algumas coisas cabem, outras não. Desde que estava no SPTV já saudava a nossa querida sexta-feira, o melhor dia da semana, com um: "graças a Deus é sexta-feira!". Quando falo de sexta, gosto de deixar bem claro que é porque eu cumpri minha missão. Quando vim para o Bom Dia Brasil, todo mundo duvidou que eu iria fazer isso às sextas. Na primeira, mandei bem alto a frase nos últimos minutos do jornal. Agora faço durante a previsão do tempo.

TV Press - Você entrou para a televisão em 1977. O que mudou no seu processo de trabalho ao longo desse tempo?
Chico Pinheiro -
Bem no início, a gente trabalhava com filme, tudo em preto e branco. Tinha que revelar o filme, cortar e emendar. Hoje é tudo bem diferente, qualquer pessoa com um "smartphone" grava imagem, som, o que quiser, e bota no ar. Com isso, muitos repórteres, e me incluo entre eles, perderam o senso do tamanho das entrevistas. Saio e faço um material gigante e o editor se mata para poder achar o que é filé mignon, dentro de um boi inteiro. Antigamente, quando eu era chefe de reportagem, falava para os meus repórteres que eles iriam sair com 50 pés de filme ¿ 36 pés davam um minuto de imagem. Ou seja, o repórter tinha um minuto e meio para ter a entrevista. A matéria era feita de maneira muito precisa e concisa. Mas aí você tinha problemas.

TV Press - Quais?
Chico Pinheiro -
Por exemplo, quando o entrevistado era alguém como o Tancredo Neves, mestre em responder apenas o que ele queria e não falar nada sobre a pergunta do repórter, era complicado. Ele sabia que você tinha pouco filme e começava a enrolar: "é um prazer imenso receber a visita do jornalista Francisco Pinheiro, da Rede Globo de Televisão, para falarmos sobre o Brasil". Quando eu fazia alguma pergunta polêmica, ele começava a desviar e o filme acabava. Adotei uma tática diferente quando o entrevistado era assim. Fazia um sinal para o cinegrafista no momento certo em que ele deveria começar a gravar. Fui usar isso com o Tancredo. Ele começou a falar, na hora que fiz a segunda pergunta, ele parou o discurso e me disse: "eu não falo para câmara desligada". Eu falei que estava ligada. Mas ele, de alguma forma, sabia que não estava gravando. Perguntei como ele descobriu, já que o cinegrafista conseguia deixar o sinal vermelho de gravação sempre ligado. Ele respondeu: "eu escuto o barulho do filme" (risos).

TV Press - Além do jornal matutino, você está sempre envolvido com a exibição do Carnaval e as gravações do 'Sarau'. Essa versatilidade é planejada?
Chico Pinheiro -
Nunca tracei planos de nada. Nem entrar para o jornalismo foi um projeto meu. Aconteceu. E quando me formei, era para escrever em jornal. Não foi para trabalhar na TV e muito menos botar a cara no vídeo. É público que eu gosto muito de samba. Então, essa minha relação com o Carnaval surgiu de maneira natural. No caso do Sarau, começou em 1998 como Espaço Aberto. A Globo News precisava de alguém que fizesse um programa de entrevistas, para contar "causos", falar de vida de pessoas. A Alice Maria (ex-diretora geral da Globo News) me fez esse convite, falou sobre minha mineirice, meu gosto por contar histórias. E eu aceitei.

TV Press - A Globo News é um canal de informação. Como você conseguiu inserir música na programação?
Chico Pinheiro -
Foi difícil. Criamos um formato e começamos a convidar as pessoas. Falei que eu queria fazer algo com música, mas a Alice Maria não quis. Para ela, música não tinha nada a ver com o canal. Porém, um dos primeiros entrevistados foi o Paulinho da Viola. Além de contar a história dele e do Rio que ele conhece, começou a rolar música. Depois desse, eu fiz um programa com o Milton Nascimento. E a música foi surgindo. Negociava com a Globo News, tinha de fazer um programa musical e dois ou três apenas de entrevista. Até que chegou uma hora que a Alice falou que eu tinha vencido. Eram brigas diárias! Foi ela quem deu o nome do programa e a chance de focar na música. Gravo toda semana e sinto um orgulho enorme do Sarau.

Música na cabeça
A ligação de Chico Pinheiro com a música é antiga. Amigo dos "conterrâneos" do "Clube da Esquina", como Milton Nascimento, e frequentador assíduo das quadras e quintais de sambistas da Portela e do Império Serrano, o jornalista não esconde o entusiasmo ao falar do Sarau, único programa musical da Globo News, exibido nas noites de sexta. "Já fizemos mais de 500 edições e recebemos os maiores nomes da música brasileira. A seleção é uma confusão, mas tenho autonomia", garante Chico, que elege a homenagem a São Jorge, que reuniu Jorge Mautner, Jorge Aragão, Jorge Vercilo, Jorge Ben e Seu Jorge, como uma das edições mais emblemáticas.

Na grade da Globo News desde 1998, o programa nasceu destinado apenas para entrevistas e sob o nome de Espaço Aberto. Com a aproximação com a música, se transformou em um ponto de encontro entre compositores, cantores e instrumentistas e há seis anos atende pelo nome de Sarau.

Atualmente, o maior desejo profissional do apresentador é levar as canções do programa a um público maior. "Queria que essa música brasileira não ficasse limitada e fosse para a TV aberta. É um sonho meu, mas respeito os vários critérios da Globo. Se um dia quiserem, estou pronto para fazer", avisa.

Natureza paterna
Na tevê há 35 anos, Chico Pinheiro ainda sente-se desconfortável quando se vê no vídeo. "Não gosto de me ver. Às vezes assisto ao Sarau, não para me avaliar, mas para curtir as apresentações do programa", conta. Nos outros momentos em que troca de função e vira telespectador, Chico não descansa: ele fica ligado em jornais, canais de notícias e programas como Profissão Repórter e Globo Rural. Além disso, deixa-se levar pela programação escolhida pelo filho mais novo, Pedro, de seis anos. "Vejo muitos documentários sobre bichos com meu filho. Ando aprendendo muito sobre tigres, serpentes e castores. Sei tudo sobre a velocidade do guepardo e o jeito que ele abate suas presas", conta, aos risos.

Trajetória televisiva
Globo Minas (Globo, 1979) - Repórter
Canal Livre (Band, 1989) - Editor/Apresentador
Jornal da Noite (Band, 1992) - Editor/Apresentador
Jornal de Domingo (Band, 1993) - Editor/Apresentador
Jornal Bandeirantes (Band, 1993) - Editor/Apresentador
Jornal da Record (Record, 1995) - Editor/Apresentador
Bom Dia São Paulo (Globo, 1996) - Apresentador
SPTV 1ª Edição (Globo, 1998) - Apresentador
Espaço Aberto (Globo News, 1998) - Apresentador
Sarau (Globo News, 2008) - Apresentador
Bom Dia Brasil (Globo, 2011) - Apresentador

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