- Márcio Maio
Reynaldo Gianecchini tem certeza de que nunca se sentirá completamente seguro atuando. Mas reconhece que a possibilidade de encarnar um personagem inescrupuloso e sedutor como o vilão Fred de Passione pode ser um divisor de águas em sua carreira. E, por isso mesmo, tenta aproveitar a chance para ganhar mais respeito na televisão. "Eu queria interpretar um cara mau e acho que a oportunidade veio na hora certa. Hoje já tenho instrumentos que me ajudam a tirar proveito das inúmeras nuances que um papel de vilão pode oferecer em uma novela", analisa. Aos 37 anos, Gianecchini não se acanha com as cenas de sexo ao lado da atriz Mariana Ximenes e deixa escapar que a escalação da colega para ser sua parceira em cena o deixou, de certa forma, mais confortável. "É a primeira vilã dela também e temos uma trajetória parecida na emissora. Sem contar que bateu uma grande empatia, nos tornamos bons colegas nesse projeto", explicou.
Esse é seu primeiro vilão. Foi isso que seduziu você em Passione?
Esse trabalho veio em uma hora muito boa. Estou tranquilo para poder brincar mais, exercitar um monte de coisas que ainda não fiz na televisão. E é muito divertido porque são várias nuances. É um papel colorido, que exige um trabalho intenso como ator. E o personagem movimenta a história toda. Faço o meu melhor, trabalho todos os dias com o maior gás, mas não fico pensando se vai representar uma grande mudança na minha vida. Prefiro não ficar dando esse peso.
Mas você foi convidado para interpretar um vilão em Cinquentinha e não pegou o papel. Por quê?
Quando fui chamado, mal tive tempo de responder. Eu peguei para ler, achei a história incrível, vi que poderia ser legal, mas já estavam todos publicando que eu faria. O problema é que iria embolar com a novela. Eu estava viajando com a minha peça e começando as leituras de "Passione". As pessoas especularam muito sobre porque eu tinha recusado. Tentaram achar inúmeras razões, mas foi só incompatibilidade de agenda mesmo. Teria sido muito bom fazer um vilão do Aguinaldo Silva e ser dirigido pelo Wolf Maya, mas não deu.
Você se sente inseguro por ser sua primeira vez como vilão?
Sempre bate um medinho. O próprio esquema de gravação na televisão é contra o ator. Não existe tanto tempo, você não conhece tão bem o personagem porque ainda não tem tanto texto escrito e recebe um volume enorme de trabalho... Dá um medo sim, mas a minha excitação é bem maior que ele. Nenhum ator pode dizer que sabe fazer isso ou aquilo, porque a gente nunca sabe como fazer. Brincamos com a alma dos seres, não é um raciocínio matemático.
Foi uma escolha sua voltar como o vilão?
Quando eu estava terminando Sete Pecados, o Sílvio disse que ia escrever um papel para mim nessa novela e que seria bem diferente de tudo que eu já tinha feito. Desde então estou muito excitado com essa ideia. Veio sob medida. Mas foi decisão dele.
Você disse que consegue brincar mais e usar coisas que nunca teve oportunidade na televisão. O que exatamente?
Técnica é uma coisa que você aprende, mas não sabe dimensionar o quanto absorveu. Só quando você está em cena é que dá para ter uma ideia. Depois de 10 anos de televisão, já tenho um pouquinho de tranquilidade para brincar com um monte de coisas. Quero, por exemplo, transformar o Fred em um vilão carismático. Quando estreei era um caos, foi muito difícil para mim. Mas agora já tenho a minha bagagem também.
Como você pretende tornar um vilão carismático?
Tento colocar um pouco de humor.
Você surgiu na TV com a imagem de príncipe e sua beleza sempre foi destacada nos folhetins. Como você lida com isso?
Honestamente, não penso muito nisso. A televisão cria uma imagem para você, o que não dá para dizer que não é legal. Não vou ser hipócrita. Mas também não quer dizer que exista esse glamour e essa beleza toda no meu cotidiano. Tem muita gente linda por aí, muito mais que eu, e que não está na televisão. Por isso, não compro muito essa história. Quero ser visto como um ator. Ainda que bonito, mas um ator.
Incomoda ser visto como um homem bonito?
Não me incomoda em nada. Mas acredito muito na força do meu trabalho. Qualquer coisa que não venha de ralação me faz ter dúvidas. Críticas são ilusões, o glamour da TV é ilusão, enfim, eu só acredito em me dedicar, dar o meu melhor e aprender a entender essa máquina toda. Não vou dormir à noite confiando que sou um cara lindão e que está tudo bem porque a gente sabe que não funciona assim.
Você já sentiu preconceito na TV por ser considerado um ator bonito?
A beleza é sempre olhada com preconceito. Às vezes deixam de olhar um personagem em mim porque já criaram a imagem pré-estabelecida do cara que é bonitão. Senti isso quando fiz o Pascoal, de Belíssima. Ele era totalmente errado, fora dos padrões de galã, e as pessoas tiveram uma resistência contra ele por conta da imagem que tinham de mim. Pareciam não querer acreditar no que estavam vendo. Mas o Sílvio de Abreu mesmo tinha falado isso. Disse que eu iria sofrer um pouco no início. Mas que, depois, o público ia acreditar que aquele personagem existia. Foi exatamente isso que aconteceu.
A Clara também é a primeira vilã da Mariana Ximenes. Estrear junto com ela nesse posto traz uma certa segurança?
Fiquei mais confortável com isso, sim. Foi bem legal porque a gente teve um encontro bacana. Depois de anos, nunca tínhamos trabalhado juntos. E temos uma trajetória bem parecida: sempre fomos vistos como mocinhos, tivemos coincidências na vida pessoal também, como o fato de termos sido casados com pessoas mais velhas, voltamos ao ar com o mesmo gás, numa fase da vida parecida... E é como se fizéssemos o mesmo personagem, só que um na versão feminina e o outro, na versão masculina.
Passione - Globo - Segunda a sábado, às 21h.
Início caótico
Antes de ingressar na carreira de ator, Reynaldo Gianecchini se dividiu entre as passarelas, como modelo, e as aulas do curso de Direito. Conseguiu se formar, mas o sucesso de suas fotos, desfiles e campanhas acabou levando-o para uma carreira internacional até que, em 1999, já casado com a jornalista e também atriz Marília Gabriela, foi lançado como a grande aposta da Globo em Laços de Família, novela de Manoel Carlos. Uma experiência enriquecedora, mas que também deixou alguns traumas. "Nesses dez anos, aos poucos, foram caindo várias fichas de aprendizado mesmo. Quando eu estreei, era um caos! Foi bem difícil me adaptar", confessou.
Hoje, visivelmente mais seguro, Gianecchini é até capaz de apontar, em sua sétima novela ¿ a quarta no horário nobre ¿, o trabalho que mais o ajudou a entender com o que chama de máquina da televisão. E, curiosamente, Tony é um dos personagens mais criticados em seu currículo. "Esperança teve alguns problemas, mas vejo uma consistência enorme ali. Tenho muito orgulho de ter participado daquele projeto, ainda mais por ter trabalhado com o Luiz Fernando Carvalho", argumentou. Mas o ator também guarda boas recordações de sua maior investida na comédia, quando encarnou o mecânico Pascoal em Belíssima. "Foi uma época bem produtiva, aprendi demais com a Cláudia Raia e o Cacá Carvalho", lembrou ele, que experimentou dupla jornada ao viver os gêmeos Paco e Apolo de Da Cor do Pecado.
Corpo em evidência
Reynaldo Gianecchini jura que não se preocupou em cuidar melhor do corpo para suas cenas de sexo em Passione. Mas assume que nos dois anos em que ficou afastado das novelas teve tempo não só para se exercitar, mas também para se envolver em projetos que exigiam bastante condicionamento físico. Para a peça Doce Deleite, que encenou ao lado de Camila Morgado, o ator fez um trabalho de arte circense, além das aulas de natação, dança e até balé durante oito meses de preparação. "Foi um trabalho muscular bem forte. Acho que nunca tinha intensificado tanto a malhação como nesse período", analisou.
Trajetória televisiva
# Laços de Família (Globo, 2000) - Edu.
# Sítio do Picapau Amarelo (Globo, 2001) - Cláudio.
# As Filhas da Mãe (Globo, 2001) - Ricardo Brandão.
# Esperança (Globo, 2002) - Tony.
# Da Cor do Pecado (Globo, 2004) - Os gêmeos Paco e Apolo.
# Belíssima (Globo, 2005) - Pascoal.
# Sete Pecados (Globo, 2007) - Dante.
# O Natal do Menino Imperador (Globo, 2008) - D. Pedro I.
# "Passione (Globo, 2010) - Fred.
- TV Press


