Ficou para trás o tempo em que novelas dividiam mocinhos e vilões
Foto: Afonso Carlos/Carta Z Notícias/TV Press
- Márcio Maio
Ficou para trás o tempo em que personagem de novela se dividia entre quem era do bem e quem era do mal. São cada vez mais comuns nos folhetins atuais os tipos que ficam "em cima do muro", com um comportamento que abre espaço para certos deslizes, mas sem que se possa taxá-los de vilões. Desde a prima que quer separar o casal romântico por puro capricho à amante rejeitada. Essa categoria de papéis prontos para dar o bote nos mocinhos se destaca e facilita o trabalho de quem escreve e atua. Isso porque abre possibilidades novas de situações de conflito mais próximas da realidade e, de quebra, tira os intérpretes da monotonia. "Os personagem têm uma humanidade grande e é exatamente isso o que buscamos em Insensato Coração: verdade e emoção", explicou Ricardo Linhares, que assina com Gilberto Braga a autoria da novela das nove da Globo.
Muitas vezes, esses personagens são capazes de detonar estigmas que perseguem alguns atores. Juliana Baroni, por exemplo, quase sempre foi lembrada para papéis de boa moça. Muito em função dos cabelos bem claros e dos olhos verdes, que dão à ex-paquita uma aparência angelical. Mas, em Ribeirão do Tempo, na pele da interesseira Karina, aproveita todas as chances de marcar bem a inclinação da "dondoca" para a maldade. Principalmente quando contracena com Heitor Martinez, que vive o maquiavélico Nicolau. "No início, a Karina quase resvalava na comédia. Agora, ela ganhou um ar mais frio, duro, estrategista e vingativo. Vilã é mais divertido. Só que dá mais trabalho, porque interpreta para os outros personagens também", avaliou Juliana.
A falta de grandes vilões propicia o crescimento de personagens assim. Em Ti-ti-ti, por exemplo, no começo não havia um assassino ou psicopata entre os personagens. Talvez por isso, Stéfany, Luísa e Clotilde, de Sophie Charlotte, Guilhermina Guinle e Juliana Alves, respectivamente, tenham ganhado tamanha dose de maldade. A primeira e a última fazem tudo para subir na vida, enquanto Luísa atormenta a mocinha Marcela, vivida por Ísis Valverde. Para Juliana, essa é uma possibilidade de mostrar na TV um trabalho diferenciado. "A Clotilde está vilã, mas não quero rotular dessa forma. Aproveito os momentos em que posso colocar um pouco de compaixão e carinho nela para continuar passeando em diversas possibilidades", analisou.
Uma situação parecida com a vivenciada por Mariana Rios em Araguaia e Fernanda Paes Leme em Insensato Coração. Mariana começou explorando o pior lado da invejosa Nancy, que cobiçava o que era da irmã Janaína, de Suzana Pires. Incluindo o namorado Fred, de Raphael Viana, e até o falecido marido. Mas agora, a jovem parece regenerada. E Fernanda, que ainda dá seus primeiros passos como a atirada Irene, confessa que não vê a personagem como uma vilã. Mas entrega que espera que isso possa acontecer com o passar dos capítulos. "Eu queria muito vê-la armando junto com o Léo. Acho que poderiam render cenas bem bacanas dessa dupla", disparou Fernanda.
Atitudes ambíguas são bem mais comuns em papéis paralelos do que na trama central. Mas a Record exibiu, recentemente, uma exceção à regra em Sansão e Dalila. Na minissérie bíblica, o nazireu Sansão, interpretado por Fernando Pavão, é traído pela amada Dalila, vivida por Mel Lisboa. O amor da moça pelo fortão não foi suficiente para passar por cima da sua vontade de ser dona de uma fortuna em joias. "Não se pode mudar a história. Aí tem de entender por que ela acaba fazendo o que faz", opinou Mel, que tenta compreender o comportamento da cortesã. "No decorrer da história, Dalila se torna uma mulher cada vez mais forte, que batalha pelas coisas dela", justificou.
Fogo cruzado
Às vezes, não é necessária uma maldade tão grande para que um personagem seja visto como possível vilão. Basta que ele
se movimente contra os interesses de um final feliz entre os personagens principais. Juliana Alves, por exemplo, se
surpreende com a quantidade de reclamações que ouve nas ruas de quem assiste à novela Ti-ti-ti. Ainda mais em função da carga
de raiva que vem com elas. "Estranhei muito porque sou odiada", atestou ela, que em cena, faz tudo para atrapalhar a vida
de Victor Valentim e Jaqueline, papéis de Murilo Benício e Cláudia Raia.
Mas são justamente as manifestações populares que mais funcionam como termômetro para continuar apostando - ou não - em um possível vilão. E chega a ser natural e até esperado que esses personagens surpreendam os telespectadores quando agem fora dos padrões éticos e morais. "Quem detona a ação é, em geral, o personagem de caráter discutível. Ao transgredir as normas, ele quebra a harmonia vigente", opinou Vincent Villari, colaborador e braço direito de Maria Adelaide Amaral em Ti-ti-ti.
Instantâneas
# Em Por Amor, a decoradora Flávia, de Maria Zilda Bethlem, começou a história como melhor amiga e sócia
da protagonista Helena, de Regina Duarte. Mas terminou desfazendo a sociedade depois de ter se envolvido com o marido dela,
Atílio, de Antônio Fagundes, antes do casamento dos dois acabar.
# Quando Poder Paralelo começou, não se sabia se Tony, personagem de Gabriel Braga Nunes, era um chefe da máfia ou policial.
# A Favorita começou sem revelar quem era a mocinha e a vilã da história. Nos primeiros dois meses, Donatela e Flora, de Cláudia Raia e Patrícia Pillar, eram cheias de atitudes suspeitas. Tudo para confundir os telespectadores.
# Luciana, vivida por Fernanda Machado em Insensato Coração, revelou-se uma mulher interesseira em relação aos assuntos de seu casamento com Pedro, de Eriberto Leão. Na história, ela não era tão amiga de Marina, a mocinha de Paola Oliveira, mas queria ter a ricaça como madrinha de seu casamento.
- Terra







