Cláudia (Giovanna Antonelli) e Vicente (Ricardo Pereira) fazem par romântico na trama
Foto: TV Globo/Divulgação
A consumação e a decepção amorosa são o elo central entre todos os personagens de Aquele Beijo. Com os vários casamentos, novos casais se formando e outras tantas separações, a novela de Miguel Falabella cumpre a promessa de ser essencialmente romântica. Para acrescentar mais água com açúcar à trama, o autor chega, inclusive, a interferir na história como um narrador onipresente. O recurso poderia soar exagerado, mas, como é feito esporadicamente, tem dado charme aos acontecimentos. Além de explorar fundo os sentimentos não ditos dos personagens, a voz de Miguel serve para unir os diversos núcleos e representa a passagem de uma cena para outra.
Mas a forte preocupação com o romance, às vezes, acaba interferindo muito no desenrolar de determinados fatos. Nos primeiros capítulos, a trama que envolve a favela Covil do Bagre parecia um elemento importante da história. Só que o conflito social logo perdeu espaço para os inúmeros problemas amorosos dos personagens. Até agora, a dificuldade na desapropriação do terreno onde fica a comunidade serviu apenas para que Alberto e Sarita, interpretados por Herson Capri e Sheron Menezzes, se conhecessem. Depois que o empresário se encantou pela líder comunitária, largou a mulher e parece um adolescente apaixonado.
Os dois personagens são um dos casais que tem dado destaque a um tema recorrente da teledramaturgia: a traição. Na atual novela das sete, este é um assunto em evidência. Todos os núcleos têm, pelo menos, uma pessoa que já caiu em tentação e, com isso, alguns até mudam de affair. O troca-troca de par romântico acaba movimentando a trama e deixa pairar uma certa dúvida sobre o fatídico "quem fica com quem". Os únicos que parecem ter destino certo são mesmo os protagonistas Claudia e Vicente, vividos por Giovanna Antonelli e Ricardo Pereira. Seus papéis foram construídos para ficarem juntos e nem mesmo a gravidez de Grazi Massafera, na vida real e na trama, parece afetar esse rumo.
Como não podia faltar em uma obra de Miguel Falabella, o humor também é uma estratégia para ganhar a empatia do público. Alguns personagens, como Brites e Violante, de Maria Vieira e Thelma Reston, respectivamente, estrelam muitas das cenas divertidas. O que se vê na novela é um humor pouco escrachado e que brinca mais com situações comuns do dia a dia e com o politicamente incorreto.
Muitas vezes, os preconceitos da sociedade estão inseridos de forma sutil em algumas cenas. Há pouco tempo, Taluda, encarnada por Priscila Marinho, reclamou que era destratada por ser negra, gorda e trabalhar como doméstica. Mesmo sem aprofundar tal tema, a novela tem incluido mais questões éticas. É o caso das falcatruas da mega loja Comprare e a exploração trabalhista da confecção Shunel. A mistura parece viável, mas Aquele Beijo ainda enfrenta problemas de audiência. Em outubro, estreou com uma média de 27 pontos e, em dezembro, marcou apenas 25 pontos. Após o fracasso de Negócio da China e os bons resultados de Toma Lá, Dá Cá e A Vida Alheia, Miguel Falabella mostra que ainda está tentando encontrar força para suas histórias mais longas.
- Terra






