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"Não tinha como pagar parto da minha mulher", diz ator de 'Salve Jorge'

10 mai 2013
17h12
atualizado às 22h20
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<p>Nando Cunha vive o personagem Pescoço em <em>Salve Jorge</em></p>
Nando Cunha vive o personagem Pescoço em Salve Jorge
Foto: TV Globo / Divulgação

"Que isso, hein?! Se isso cru já é bom, imagina assado e besuntado na manteiga!", dispara Pescoço, em uma das muitas cenas em que Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues) toma sol na laje no morro do Alemão, um dos núcleos mais divertidos de Salve Jorge. Com bordões e cantadas infalíveis, Nando Cunha tornou o personagem mulherengo e preguiçoso em um dos maiores sucessos da novela. E olha que Glória Perez só criou o "galã" da comunidade depois que todo o elenco já tinha função definida. 

"Meu personagem seria outro. Ia viver o José Biscateiro, um homem que fazia serviços dentro do Alemão, ele ia ter um drama, mas era um personagem pequeno. Aí, a Gloria disse que precisava arranjar um homem para a Delzuite", explicou Nando, em entrevista exclusiva ao Terra, por telefone.

Se na ficção o ator conseguiu convencer como mulherengo, na vida real a história nem sempre foi assim. "Na faculdade, eu tinha um apelido. Me chamavam de Aiatolá Comeninguém, ou seja, não comia ninguém.  Conseguia me aproximar das mulheres por causa do humor, era engraçadinho", contou Nando Cunha, que hoje é casado com Flávia Câmara e tem um filho de dez meses, o pequeno Davi.

"Eu estava 'grávido', sem trabalhar fazia um tempo, minha última novela tinha sido Araguaia (2011)", afirmou. "Marcos Schechtman (diretor da trama) foi generoso, me deu um personagem pequeno, que morreu, e criaram o Pescoço. Devo muito a ele por ter dado a oportunidade e à Gloria pela generosidade e confiança. Eu não tinha como pagar o parto para a minha mulher", explicou.

Oportunidade dada e agarrada com unhas e dentes. Pescoço virou um ícone da trama, fato comprovado nas ruas. "Antes era: 'vou te arracar o pescoço'. Agora é: 'vamos comigo lá para a minha laje?'", divertiu-se. E, assim como o personagem, Nando Cunha "deixou o cavalo dele andar". E quem liga para as críticas que a novela recebeu durante o tempo que esteve no ar? Com certeza, o elenco é que não. "Se você não quiser ouvir crítica, não sai de casa. A gente vinha de um sucesso estrondoso, que era Avenida Brasil. A gente sabia que iam criticar", concluiu.

Confira a entrevista completa:

Terra - Como está o reconhecimento nas ruas? As pessoas defendem ou criticam o Pescoço?
Nando Cunha - No começo, era crítica mesmo. As mulheres queriam me bater na rua. Hoje, ele é uma unanimidade. De crianca a idoso, as pessoas adoram o Pescoço, aquele malandro que dá errado, que vive tentando fazer malandragem e acaba se dando mal. Leva uns solavancos da Lurdinha, da Delzuite. Virou engraçado, ficou leve. Eu quis fazer ele canalha, para elas terem nojo. Então, no começo, me diziam que tinham nojo dele e eu dizia: 'que bom! era isso que eu queria'. Depois, isso acabou. Acho que pelos bordões, essa coisa toda, virou engraçado.

Terra - Você que cria os bordões ou já vem no texto da Glória Perez?
Nando Cunha - Eu que criei todos, mas, na verdade, eram expressões que já existiam. Deixa meu cavalo andar, volta para a garrafa, eram frases que já existiam. Dei sorte de colocar na hora certa. Aí, consegui me sobressair. É a percepção do ator. Cabia na malandragem dele, por isso deu certo.

Terra - O Pescoço era para ser apenas uma participação e virou um personagem fixo?
Nando Cunha - Na verdade, o meu personagem é que seria outro. Ia viver o José Biscateiro, um homem que fazia serviços dentro do Alemão, ele ia ter um drama, mas era um personagem pequeno. Aí, a Glória disse que precisava arranjar um homem para a Delzuite e criou o Pescoço. Ninguém sabia quem ia fazer. Os atores ficaram se perguntando. Um dia, fui perguntar para ela informações sobre meu personagem antigo e ela disse: 'esquece. você vai ser o Pescoço'. Minha cabeça foi a mil. O nome já era forte. Era um personagem que poderia marcar, mas eu não tinha a menor ideia de que ia fazer esse sucesso, porque a novela tinha muitos atores que já tinham protagonizado novelas, renomados e tal. Gente, não vão nem lembrar quem eu sou. Graças a Deus, eu tive uma parceria bacana com a Roberta Rodrigues e a Solange Badim. Criamos um conflito legal, um trio bacana, que conseguiu se sobressair naquele universo. Graças a Deus, a São Jorge, à Glória e a Marcos Schtmann, que quando eu precisei, me puxou para essa novela. Não esperava isso. Ele me disse, que tudo ia depender de como eu fizesse o personagem. Todo trabalho que eu entro é para valer e esse foi mais um. Meu primeiro personagem foi o Soldado Brasil, que guardadas as devidas proporções, tinha a mesma repercussão nas ruas, mas era uma novela da seis. Novela das oito é diferente, né?!

Terra - Por que você acha que as mulheres tem esse fascínio por homens mulherengos?
Nando Cunha - É como na propaganda. Se o produto tem uma boa propaganda, vai ter uma boa saída. O cara está cheio de mulheres em volta dele, as outras vão saber que ele é bom. O cara mulherengo é bom amante, tem uma pegada diferente, por mais safado que seja, ele é bom. Elas sabem que é o cara que não vai falhar. Talvez seja por isso que todo mundo queira me levar para a laje agora. Antes era: "vou te arracar o pescoço". Agora é: "vamos comigo lá para a minha laje?". É 

<p>O ator é casado e pai de Davi, de apenas dez meses</p>
O ator é casado e pai de Davi, de apenas dez meses
Foto: TV Globo / Divulgação
bacana isso. Assim como tem gente que gosta de branco, negro, azul, amarelo, tem mulher que prefere homem canalha. Tem gente que gosta!

Terra - Já foi mulherengo na vida real?
Nando Cunha - Muito. Eu gosto muito da fruta. Quando estava na fase de curtir, curtia, dava trabalho. As pessoas diziam que eu era canalha, não prestava, mas é o que eu falei, tudo isso me serviu para ser o homem que eu sou hoje. É experiência de vida. Cresci como pessoa, como ser humano, aprendi a lidar com o outro. Tudo isso vem para gente crescer. Fui traído para caramba, sofri, chorei, perdoei, voltei, mas isso me fez evoluir para ser o homem que eu sou hoje. Pai de um filho lindo, marido de uma mulher maravilhosa, linda. Tudo é aprendizado. O ser humano, quando é inteligente, ele evolui. Tem gente que emburrece e fica lá.

Terra - Já teve alguma Maria Vanúbia em sua vida, que o fez perder a cabeça?
Nando Cunha - Já. Com certeza, tive! Mas é aprendizado. Nunca fui galã, nunca fui a escolha das mulheres. Na faculdade, eu tinha um apelido. Me chamavam de Aiatolá Comeninguém, ou seja, não comia ninguém.  Conseguia me aproximar das mulheres por causa do humor, era engraçadinho. O humor era a minha defesa, mas servia também para conquistar as mulheres. Cantava elas com humor. Porque bonito, bonito mesmo, eu não era, mas era bem humorado e as mulheres gostam disso.

Terra - Como foram as gravações no Alemão? Já estava familiarizado com esse universo? Conhecia a comunidade?
Nando Cunha - Não conhecia ninguém lá. Eu morava na Penha. Na época que eu subia, não tinha essa coisa toda, eu não tinha noção da bandidagem, nada. Mas a repercussão foi maravilhosa. A gente pode ouvir eles de perto. É bacana porque a gente está dando voz para pessoas que não tiveram nem rosto nem voz por muito tempo. Eles abraçaram a gente. Foi tudo muito carinhoso. É uma festa toda a vez que vamos gravar lá. Estou aguardando agora a última gravação. Foi ali que gravei minha primeira cena e vai ser ali que vou filmar a última. Vai terminar onde tudo começou. Já estou preparando os lenços, vai ser um chororô. Vou estar emocionado.

Terra - A Delzuite tem que perdoar o Pescoço? Eles vão ficar juntos no final da novela?
Nando Cunha - É novela, né? Todo mundo quer os dois juntos, o que deu certo foi o conflito deles. A vida vai continuar como antes. Acho que os finais mais aguardados são se a Lívia (Claudia Raia) e o Russo (Adriano Garib) vão morrer ou não. No caso do Pescoço, eu não recebi nada mirabolante até agora. Têm algumas coisas para receber ainda, mas agradeço desde já tudo o que aconteceu. Falei uma vez que mesmo se meu personagem terminasse mudo, eu estava feliz e agradecido.

Terra - O Pescoco é apontado como o sequestrador da Aisha. Acha que ele seria capaz disso?
Nando Cunha - O ser humano é capaz de tudo, a gente pode esperar tudo. Ele poderia ter feito isso, claro, mas pelo o que eu recebi até agora, isso já está fora de cogitação. Ele não fez isso.

Terra - Acha que o núcleo do Alemão foi o que ganhou a novela, por causa das confusões e do humor?
Nando Cunha - Acho que, mantendo as devidas proporções, claro, o que fez sucesso em Avenida Brasil? Era o Divino. Era a classe popular e ela está na moda. As pessoas estão de saco cheio do núcleo rico. Querem ver o popular. A galera quer se ver na novela, quer ter referência. No Alemão, eles se viram. A gente está ali se assistindo, junto com o elenco. A Giovanna Antonelli, por exemplo, deu uma leveza para a personagem dela. Era uma história pesada que estava sendo contada, uma historia verdadeira. O talento dela é indiscutível, isso se deve ao talento dela. A química entre eu, Roberta e Solage também deu certo. A novela é uma obra aberta, tudo isso poderia não dar certo. Não sabia nem o que ia acontecer comigo. Eu não imaginava estar falando de tudo isso agora para você, por exemplo.

Terra - Como o elenco tem recebido as critícas à novela?
Nando Cunha - Acho que o menos experiente ali sou eu. Só tenho duas novelas e tal. Mas acho que se você não quiser ouvir crítica, não sai de casa. A gente vinha de um sucesso estrondoso, que era Avenida Brasil. A gente sabia que iam criticar. Mas Avenida Brasil também teve críticas. Todo mundo se perguntava se Nina não tinha um pen drive, se não tinha cartão de crédito, quem andava com tanto dinheiro pela rua. Foram várias críticas. E, olha, o João Emanuel Carneiro tinha vários colaboradores para escrever. A Glória escreve sozinha, cruza as histórias sozinha. É um gênio nesse quesito de teledramartugia. A novela é uma obra aberta. Se ela existe, é porque está dando certo. É muito dinheiro envolvido, é igual uma empresa. Se não está dando certo, eles estudam para ver o que vai melhorar. Pesquisas são feitas para saber o que está dando certo. Por isso que, quando eu fui fazer a primeira cena, eu disse para a Roberta: 'tem que ser agora!'. Deu certo. A cena que todo mundo ria e comentava na coletiva de imprensa da novela, era dos dois. Foi legal. Foi a primeira cena. Pensamos: 'a gente tá no meio do caminho, então. Estamos na direção certa'. Daqui a pouco vai pintar outra novela, outro Pescoço, outra Vanúbia. É um círculo. Novela é uma indústria. 

Terra - Durante sua participação no Domingão do Faustão, você disse que Marcos Schechtman te ajudou quando estava precisando de emprego. Qual era a sua situação antes de ser escalado para a novela?
Nando Cunha - Eu estava "grávido", sem trabalhar fazia um tempo, minha última novela tinha sido Araguaia (2011). Fiz o que todo mundo faz quando está desempregado: networking. Mandei e-mail daqui, e-mail de lá. Schechtman foi generoso, me deu um personagem pequeno, que morreu e criaram o Pescoço. Como te falei, devo muito a ele por ter dado a oportunidade e à Gloria pela generosidade e confiaça. Eu não tinha como pagar o parto para a minha mulher, talvez tivesse que fazer em um hospital público e não era o que a gente queria. Mas o plano de saúde da Globo é legal e deu para fazer tudo direitinho. Foi bem bacana. 

Terra - Acha que conseguiu se consolidar na TV agora? Tem contrato com a Globo?
Nando Cunha - Ainda falta muita coisa. Me senti realizado por estar mostrando meu trabalho para mais pessoas. Mais ainda falta muito. Pretendo me estabilizar, criar meu filho daqui alguns anos com a minha carreira. É só um degrau que eu subi. A única certeza que eu tenho é que daqui quinze dias o meu contrato acaba e eu estou desempregado de novo.

Terra - Você se dá melhor com personagens cômicos?
Nando Cunha - Eu faço o que me pedirem para fazer. Estou preparado para tudo. Acho legal. Eu fiz o Pimpinela (Araguaia), que era super angustiado, o soldado Brasil (Desejo Proibido), que só fazia as pessoas rirem. Fiz o Grande Otelo (Dalva e Herivelto), que sempre foi uma grande referência para mim, era um gênio, maravilhoso, foi discriminado, não tão valorizado como deveria, e conseguiu sobreviver a tudo isso, ultrapassar todas as barreiras. Era um cara versátil, fazia humor e drama, era bom tanto no cinema, quanto no teatro. Cantava, fazia show. Hoje em dia tem que estar preparado para tudo. O Pescoço, por exemplo. Era um cara escroto, eu quis fazer ele assim no começo. Era nojento, não respeitava a mulher, preguiçoso, vagabundo, não quer trabalhar. Ele foi mudando, ficou engraçado. O ator tem que estar atento a isso. Dentro da TV, o mais difícil é ser versátil. Não sou tachado como um tipo de ator. O legal é ser versátil.

Terra - Como foram seus 15 anos de profissão antes de Salve Jorge?
Nando Cunha - Fui aprendendo. No teatro, eu era conhecido. Fiz um curta com o diretor de Faroeste Cabloco. Fiz muito teatro. Ainda não fiz um protagonista, mas não é um sonho. Se tiver que aparecer, vai aparecer. Fiz uma participação no Querô. Nunca tive escola para aprender a ser ator. Nunca sonhei em ser ator. Fazia Letras, quis muito ser publicitário. A vida foi me levando, foi acontecendo de me levarem para o teatro, fiz uma peça, aí fui chamada para outra. Fiz um comercial e tal. Fui fazendo teste para TV. Fiz isso de 1997 até 2007. Aí veio Força Tarefa, Araguaia. E eu comecei aprender a fazer novela. O sucesso vir agora foi a hora certa, porque eu estava maduro profissionalmente. Se fizesse o sucesso quando era o Soldado Brasil, estaria besta demais, arrogante. Aconteceu em um momento que meu pés estão enraizados no chão, consciente do que estou fazendo. Daqui um pouco, isso passa. Ninguém vai querer falar comigo. Só se eu fizer uma m****, fora isso, tudo acaba. Essa onda passa. Até pintar um outro personagem, um outro convite. Não tenho a menor noção do que vai acontecer. Tenho os pés no chão, essa caminhada toda me deu maturidade.

<p>Nando Cunha como Pimpinela, na novela 'Araguaia'</p>
Nando Cunha como Pimpinela, na novela 'Araguaia'
Foto: TV Globo / Divulgação

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Fonte: Terra
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