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TV

Produtores de 'Lost' falam sobre o fim da série

18 mai 2010
11h45
atualizado às 12h07
LORNE MANLY

Depois de seis temporadas de reviravoltas com náufragos que viajam no tempo, acontecimentos misteriosos numa ilha tropical, discussões calorosas sobre fé X razão e relações e brigas suficientes para competir com Craigslist e "Raw", Lost chega ao fim no dia 23 de maio. E na primeira segunda-feira de maio, poucas horas antes de os produtores da série, Damon Lindelof e Carlton Cuse, terminarem a edição final do último episódio de duas horas e meia, o bangalô que abriga a equipe criativa de Lost no estúdio da Disney já tinha um ar de desamparo. A maioria dos roteiristas havia ido embora há semanas.

Caixotes empacotados se encontravam empilhados nas paredes. Até mesmo os fliperamas na área comum - Asteroids, Battlezone e Multicade- haviam sido retirados naquela manhã e devolvidos ao dono, J.J. Abrams, criador da série com Lindelof. Mas a amigável dupla Lindelof e Cuse, que se juntaram logo no início da primeira temporada para ajudar na supervisão da série, parecia animada apesar de uma semana de pouco descanso. Concluir a popular série pode ter um gosto ao mesmo tempo doce e amargo, mas os dois estão saindo de cena segundo suas próprias regras, tendo persuadido a ABC três anos atrás a assegurar o desfecho criativo da série mesmo se o programa ainda tivesse uma audiência alta.

No café da manhã (que eles literalmente dividiram), Lindelof e Cuse falaram sobre o tema mais importante da série, o papel do destino na narrativa e quanto do final já era conhecido desde o começo.

Vocês dois decidiram dar uma de David Chase: como o criador de Família Soprano, vocês decidiram não responder a perguntas sobre o final da série e seus grandes significados. Por que vocês tomaram essa decisão?
Cuse: Nós também meio que fizemos a mesma coisa ano sim ano não, ou seja, não falamos sobre o final da série durante um período porque queremos que o público tenha a chance de digeri-la e chegar às suas próprias conclusões. Achamos que seria imensamente presunçoso e frustrante para o público se alguém dissesse, "não, o que você pensa está errado porque foi isso que Damon e Carlton disseram". Achamos que uma das coisas mais legais de Lost é que há muita ambiguidade intencional e muito espaço para debate e discussão.

Sua série transita por muitos grandes temas - destino X livre arbítrio, bem X mal, fé X razão, o número de vezes que Sawyer deve tirar a camisa. No final das contas, quais foram os temas mais importantes da série para vocês?
Lindelof: Se existe uma palavra que sempre retomamos, é redenção. É essa ideia de que todo mundo tem algo pelo qual se redimir e a ideia de que essa redenção não necessariamente vem de nenhum lugar além de nosso interior. Mas você só consegue se redimir através de uma comunidade. Por isso o tema da redenção passou a se ligar ao "viver junto, morrer sozinho", o que significa que essas pessoas eram todas como lobos solitários, estranhos completos num avião, mesmo aqueles que viajavam juntos, como Sun e Jin. Então, nós os unimos e, através de suas experiências conjuntas, permitimos que eles se redimissem. Quando a série está a toda potência, é esse tipo de narrativa que fazemos. Acho que sempre dissemos que os personagens de Lost são profundamente imperfeitos, mas quando olhamos para suas histórias em flashback, todos eles são vítimas. Kate foi vítima antes de matar o padrasto. Os pais de Sawyer se mataram enquanto ele se escondia embaixo da cama. O pai de Jack era um alcoólatra que o reprimia quando criança. Sayid era manipulado pelo governo americano para torturar outra pessoa. John Locke teve seu rim roubado. Essa ideia de dizer "uma coisa ruim me aconteceu, eu sou uma vítima, isso gerou um comportamento ruim e agora vou assumir a responsabilidade, permitindo que eu me redima pela comunidade junto de outras pessoas" parece ser o tema que sempre retomamos.

Esses são temas importantes para se tratar num ambiente que não é necessariamente o mais hospitaleiro, uma série de emissora da TV aberta. Como vocês encontram uma forma de trabalhar esses temas enquanto lidam com restrições resultantes do fato de não estarem em canais a cabo como AMC ou mesmo HBO, mas sim na ABC, e ainda precisarem de audiência significante?
Cuse: Acho que é porque sempre colocamos o valor do entretenimento em primeiro lugar. Embora essas ideias sejam muito importantes para nós, nos esforçamos para não sermos preciosistas ou pretensiosos a respeito disso. O que de fato fazemos é usar a nêmesis da TV aberta -a estrutura fragmentada- e tentar usá-la em nosso proveito. Temos seis intervalos comerciais em um episódio de Lost, por isso, nosso objetivo é, ao quebrar as histórias, fazer com que cada um desses intervalos sejam realmente emocionantes. Essas questões levaram a muitas cenas intensas, reviravoltas e surpresas bacanas, e eu acho que é assim que Dickens criava suspense no final de seus contos seriados no jornal, quando ele escrevia para tentar fazer com que as pessoas voltassem no dia seguinte.

Uma crítica à série ao longo dos anos foi de que ela inseria várias grandes ideias ao dar aos personagens nomes de filósofos: Hume, Rousseau, Locke e outros. Existe uma preocupação de que vocês estejam apenas jogando as referências nessa mistura e dando à série um revestimento intelectual quando, na verdade, as ações e motivações desses personagens não têm correlação com seus nomes.
Lindelof: Uma das coisas pelas quais temos total responsabilidade é o fato de, em muitos aspectos, Lost ser uma mistura de nossas histórias favoritas, sejam histórias da Bíblia do catecismo de domingo ou Narnia ou Guerra nas Estrelas ou os escritos de John Steinbeck. Tanto Carlton quanto eu fizemos aula de filosofia na faculdade e conversamos sobre isso. Portanto, quando certas ideias começaram a aparecer na série, nós só queríamos permitir que o público soubesse que esses filósofos estão no nosso léxico de contadores de histórias.

A pergunta que mais recebo de leitores e amigos, além da questão sobre o que tudo significa, é: quanto os roteiristas e criadores sabiam sobre como as coisas iam terminar durante o percurso da série?
Lindelof: Ao responder essa pergunta, é preciso bifurcar a construção criativa da mitologia da série e a série como um todo em dois períodos. O primeiro período foi quando nós não sabíamos quanto tempo a série iria durar. Por isso, existia um grau de incerteza que Carlton e eu discutimos exaustivamente no período da segunda e terceira temporadas, quando podíamos apenas fazer uma trama pela metade. Tivemos conversas extensas sobre certos elementos mitológicos da ilha: por que essas pessoas não podiam ser encontradas; a decisão de fazer uma narrativa relacionada a uma viagem no tempo; e, mais importante, os Outros da ilha e sua relação com o personagem Jacob, além de sua identidade e relação com a ilha. Quem terminaria com quem, quem ficaria vivo, quem morreria, quem faria sacrifícios. Mas nenhuma dessas coisas podia ser implementada ou conversada de forma real até que negociássemos uma data de encerramento da série.
Cuse: A última cena da série é algo que planejamos com muita antecedência logo na primeira temporada. Mas o último episódio é um amálgama de ideias que começaram com nossas primeiras conversas de mitologia na primeira temporada, quando percebemos, depois que o episódio piloto foi ao ar e a audiência foi enorme, que a série duraria um longo tempo. No final de cada temporada, sentávamos e colocávamos os roteiristas num miniacampamento por um mês, onde eles pensavam em muito mais detalhes sobre o tipo de estrutura da próxima temporada. Depois, ao longo do ano, nós fazíamos a construção da coisa toda. E assim como na construção de uma casa, existem muitas mudanças de plano. Testamos várias relações na série, uma das quais foi essa ideia que tivemos: e se unirmos Sawyer e Juliet? Nós, a maioria dos roteiristas e os próprios atores tínhamos muitas dúvidas sobre o sucesso dessa relação, mas nossa opinião foi: vamos tentar. E para nosso espanto, essa coisa desabrochou sem ninguém esperar, e um tipo de amor maduro surgiu entre esses dois personagens.

Na temporada passada, vocês duplicaram a ficção científica com a viagem no tempo, e este ano introduziram uma perspectiva muito mais religiosa. O que levou a essa mudança?
Cuse: Vemos cada temporada do programa como o livro de uma série. Por isso, no ano passado, fizemos o livro da viagem no tempo, e essa história teve um início, meio e fim. A temporada atual é significantemente espiritual. Sentimos que a missão da última temporada do programa era fechar o ciclo. E se nós fôssemos discutir o que realmente importava para nós, ou seja, como as jornadas desses personagens terminam, essa jornada é uma jornada espiritual.

Os episódios que parecem ter tido um impacto maior nos espectadores são os que envolvem Desmond e Penny, em particular o episódio Constant da quarta temporada. O que foi tão prazeroso na elaboração desse episódio?
Lindelof: O interessante desse episódio é que sua narrativa é muito simples, mas ao mesmo tempo muito complicada. A parte simples é que esse episódio se chama The Constant, e todo o seu propósito é que existe alguém por aí que é a sua cara metade. E novamente, isso se relacionou, de uma forma bem óbvia, ao tema que estávamos discutindo antes, que é: ninguém consegue persistir sozinho. Desmond estava desimpedido ou perdido, ele era um náufrago se debatendo através do tempo e sua única salvação era encontrar a mulher que ele amou e dizer a ela, "preciso que você me salve porque estou perdido". Isso englobou fundamentalmente todos os temas da série. Você está basicamente dizendo que a emoção vence a mitologia.

O que vocês estão tentando fazer este ano com o mundo paralelo, uma existência aparentemente causada pela explosão de uma bomba de hidrogênio no final da quinta temporada?
Cuse: Responder a essa pergunta estragaria a série, e essa também é uma das perguntas que achamos ser mais saudável e legal debater depois que a série acabar. Existe uma conclusão para a história paralela, mas sentimos que ela irá provocar discussão.

Vocês acham que uma série como essa -grande orçamento, serializada, muito intensa, muitos personagens- ainda pode funcionar numa emissora da TV aberta?
Cuse: Um dos elementos nostálgicos de vivenciar o final de Lost é que eu também acho que é o fim de uma era. A paisagem da mídia mudou dramaticamente nos seis anos dessa série. Aqui estamos, filmando uma série com 425 pessoas trabalhando nela, 325 no Havaí e 100 aqui em Los Angeles. Filmamos a série numa película Panavision de 35 mm, temos duas equipes completas -a escala, o escopo e o tamanho disso fazem desse programa a série de televisão mais cara do mundo. E, na atual situação da mídia, é incrivelmente difícil financiar algo da maneira que Lost foi financiada. Temos um cenário fragmentado da mídia, temos muito mais opções, mas, como resultado, os recursos de cada programa que é produzido são menores. Por isso, nos sentimos um pouco como ferreiros numa era da internet. É meio triste porque somos grandes fãs do gênero de ação-aventura e coisas do tipo. E quando vemos que o final de Lost é quase um filme, como fãs de TV, é triste perceber que não haverá tantas apostas desse porte e escopo.

Cena dos últimos episódios de 'Lost'
Cena dos últimos episódios de 'Lost'
Foto: ABC / Divulgação
The New York Times
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