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Último episódio de 'Lost' enfrenta possível decepção geral

23 mai 2010
11h17
atualizado às 12h47

ALERTA SPOILERS: ESSE TEXTO CONTA DETALHES DOS EPISÓDIOS FINAIS DA SÉRIE 'LOST'.

Eric Deggans
De Nova York

Depois de todo esse tempo - após ursos polares, monstros de fumaça, viagens no tempo, candidatos e calamidades -, percebemos que estávamos fazendo as perguntas erradas sobre o último episódio de Lost, que será exibido neste domingo (23) nos Estados Unidos.

Quando os mentores do programa Damon Lindelof e Carlton Cuse salvaram a série mais ousada da TV aberta americana ao determinar seu final anos atrás, aqueles de nós que debatiam os méritos entre Jack Controlador versus Locke Crente tinham apenas uma pergunta: como eles poderão terminar tudo isso de uma maneira que nos satisfaça?

Esse é o lado negativo de criar uma base de fãs tão obsessiva. Eles te acompanham em fóruns na internet, podcasts, redes de e-mail e blogs. Como fãs de Lost, temos orgulho de dedicar nosso espaço livre no cérebro a reflexões sobre se o Monstro de Fumaça Parecido com John Locke está vivo ou morto, discutindo apaixonadamente que a ilha é uma máquina de redenção para almas perdidas e um campo de batalha de dois semideuses.Nós vimos o que aconteceu a outros programas que amávamos.

Assistimos com horror quando o fim abrupto e pungentemente ambíguo de Sopranos obscureceu oito anos de drama espetacular. Nos encolhemos enquanto o episódio final de Seinfeld, desajeitado e sem graça, extraía cada gota de admiração que tínhamos por aquela junção de esquisitices peculiares e urbanas, precisando de 12 anos e um mostruário de Larry David na HBO para finalmente corrigir a coisa.

Portanto, podemos ser perdoados por procurar no lugar errado desta vez. Enquanto a transmissão de cinco horas e meia se desenrola, existe uma pergunta bem melhor para aqueles de nós que sabem a diferença entre um candidato, os Outros e as pessoas da Dharma.

Como dizer adeus a uma série que nos manteve hipnotizados por tanto tempo?"Gostaria de poder parar o tempo para que o final nunca acontecesse", disse emocionada Nikki Stafford, autora de Finding Lost, uma série de guias não-oficiais sobre o programa. "Estamos quase com medo de que acabe. Vai ser que nem o dia depois do Natal: goste você ou não dos presentes que ganhou, acabou."

O redator da revista Entertainment Weekly, Jeff "Doc" Jensen, conhecido como um dos primeiros pesquisadores de Lost dos Estados Unidos, planeja passar seus dias após o episódio de hoje ajudando a construir uma casa com a organização Habitat for Humanity, conscientemente adotando um novo ritual para comemorar o fim de uma obsessão de vários anos.

"Estou esperando com muita ansiedade e temor", disse Jensen, que garantiu não saber como o seriado vai acabar, apesar de ter sido autorizado a assistir ao último dia de filmagens para o guia do telespectador da revista, que traz 40 páginas exaustivas. "Acho que muito de Lost é sobre fazer sentido. Eu escolho coroar o dia seguinte com um sentido que diga que um momento importante da minha vida terminou."

Na verdade, quando fãs perguntam sobre o que esperar do final, a resposta de Jensen é uma versão séria da piada do lendário William Shatner de Jornada nas Estrelas no Saturday Night Live: "arranje uma vida".

"Minha recomendação é que as pessoas lembrem como foi divertido dissecar tudo aquilo", disse. "Se você tem assistido honestamente a esse programa por três ou seis anos e tudo depende desse episódio... você tem desperdiçado sua vida."

Um final com ambição
Talvez. Mas essa é a charada que todo seriado televisivo complexo e cheio de tramas enfrenta quando chega a hora de arrumar tudo.Se você espera que os fãs devorem cada pista e dissequem cada mudança na história, não fique surpreso quando eles esperarem que você faça tudo isso ter valido a pena quando chegar a hora de terminar.

"Se o final não fosse ambicioso, não manteria o nível do programa", disse Cuse, o produtor-executivo de Lost, em entrevista para a revista Time. "Algumas pessoas vão ficar insatisfeitas. (...) Os fãs se dividiram em facções. Existem aqueles que dizem que o programa fala sobre a jornada, não sobre o destino, e que é assim que ele deve ser assistido. E tem aqueles que estão ficando muito ansiosos e nervosos pelas perguntas que cultivaram por tantas temporadas, pois começam a entender que, 'Meu Deus, aquela pergunta que tenho, com que me importo, não vai ser respondida'".

Isso faz perfeito sentido para Jensen. "Atenção todo mundo, eles nunca escreveram essa história para os fãs", disse. "Esse seriado foi um animal único contando sua própria história. Eu sempre quis saber onde a história quer terminar, não onde eu quero que ela termine."

Na terça-feira, vimos o herói em eterno conflito Jack Shephard virar o substituto do guardião morto da ilha, Jacob - um ente sobrenatural de centenas de anos que mudou a vida da maioria dos personagens principais do programa em algum momento, atraindo-os até a ilha como candidatos à sucessão.

Na semana anterior, descobrimos que a ilha abriga uma luz misteriosa que brilha em toda a humanidade, protegida há séculos por Jacob e, antes dele, sua mãe adotiva dos impulsos destrutivos de homens malignos. Jacob descobriu quão destrutiva essa força pode ser quando arremessou seu irmão para dentro da luz há mais de 150 anos, transformando-o no Monstro de Fumaça de forma mutante, que aparentemente era seu espírito poluído e sem amarras.

E isso foi apenas os dois últimos episódios. É um momento singular: a série que começou como a história de pessoas perdidas em uma ilha tropical explodiu em uma narrativa dispersa sobre escolhas de vida, redenção, viagem no tempo, amor não-correspondido ou correspondido, a natureza da espiritualidade versus a razão e a existência de realidades alternativas.

Até o criador de Guerra nas Estrelas, George Lucas, tirou o chapéu para o programa em uma carta aos produtores publicada pela Hollywood Reporter. "Não diga a ninguém, mas quando Guerra nas Estrelas surgiu, eu também não sabia para onde a saga estava indo", escreveu Lucas. "O truque é fingir que você planejou tudo com antecedência."

O legado para a TV?
Como é de se esperar de um programa tão deliberadamente ambivalente como Lost, a questão do seu legado é complicada. Em um nível, a série ajudou a inspirar os produtores de TV a assumir riscos. Em certo momento, parecia que todos os episódios pilotos tinham uma história que retrocedia e avançava através do tempo. A lição: os telespectadores conseguem lidar com histórias complicadas com muitos detalhes brotando ao longo da vida de um programa.

Num momento em que Lost e outra grande série, 24 Horas, terminam sua existência com um dia de diferença, parece óbvio que o cemitério televisivo está repleto de programas que tentaram embarcar em tendência similar, como FlashForward, Daybreak, Surface, Pushing Daisies, Kidnapped, Six Degrees, The Nine e Big Day.

A verdade é que Lost, como Twin Peaks e Arquivo X antes dela, talvez seja a exceção que ressalta o quanto o resto da TV aberta depende de fórmulas.

"Seis anos atrás, estávamos falando sobre o advento de um novo tipo de televisão, sobre a popularização da ficção científica e um mercado para programas de mitologia", disse Jensen, da Entertainment Weekly. "Seis anos depois, a televisão aberta não é um meio que pode sustentar programas como Lost. A audiência disse, 'Não tenho tempo para investir', e as emissoras disseram, 'Então, não temos como produzi-los'."

Mas Michael Purcell, vice-presidente executivo e chefe de marketing da Global Cash Card, disse que Lost criou uma legião de fãs interconectados e superobsessivos que hoje exigem mais das emissoras. Colega de escola do cocriador J. J. Abrams, Purcell é um fã de longa data que colocou seu dinheiro onde sua paixão está, patrocinando um dos podcasts de mais longa duração sobre Lost (Lost Podcast with Jay and Jack) e preparando a maior festa do último episódio dos Estados Unidos.

"Superamos a era das séries de comédia. O que realmente queremos hoje é assistir à televisão inteligente", disse Purcell, que gastou US$ 75 mil em sua festa para a série no Orpheum Theatre, em Los Angeles, que terá a presença do ator Michael Emerson. "(A festa) é na verdade um agradecimento ao programa. É um brado que diz: se vocês passarem conteúdo de qualidade, nós acompanharemos."

De fato, Jay Glatfelter, que apresenta o podcast com seu pai Jack, em Raleigh (Carolina do Norte), desde 2005, não espera desmoronar após a exibição. Ao invés disso, eles vão passar semanas dissecando o final e começar a falar novamente sobre o seriado desde seu primeiro episódio - olhando para o passado com o conhecimento de como tudo termina.

"A melhor parte sobre o que acontece em Lost é o que acontece após Lost, quando a discussão começa", disse. "Se você responder a todas as perguntas (no episódio final), você perde isso."

A autora de Finding Lost concorda. "Uma coisa que preocupa fãs de Lost é que a discussão acontece agora sem nenhuma especulação. A discussão precisa mudar completamente", disse ela. "As pessoas levam o programa para o lado pessoal. Elas se enxergam nos personagens, (pensando) 'se eu tivesse feito escolhas diferentes, quão diferente seria minha vida hoje?'. O que elas querem mais do que nunca agora é simplesmente começar uma nova discussão."

Então, como esses especialistas acham que tudo vai terminar?Stafford prevê que os personagens vão parar no mundo alternativo, uma versão aparentemente mais recompensadora do universo Lost criada pela explosão de uma bomba de hidrogênio no início da temporada, "porque queremos o final feliz". Purcell espera que os náufragos se sacrifiquem e talvez mudem a ilha para o universo alternativo, mas alerta que "todas as vezes, minhas previsões estão 100% erradas".

Jensen acha que tudo vai se reduzir às escolhas, de alguma forma."Sempre foi um programa que diz que nosso mundo é fundamentalmente um lugar espiritual e que nós podemos usar a razão para compreendê-lo", disse. "É sobre equilíbrio. Vamos descobrir que (os personagens) têm mais controle do que pensávamos que eles tinham."

Tradução: Amy Traduções

Episódio final

O Terra TV vai transmitir o último episódio do seriado na terça-feira (25), às 23h.

Cenas do último episódio de 'Lost', que será exibido neste domingo nos Estados Unidos
Cenas do último episódio de 'Lost', que será exibido neste domingo nos Estados Unidos
Foto: Divulgação
The New York Times
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