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O caminho da Mongólia para readquirir seu alfabeto e abandonar o cirílico

27 fev 2017
10h12
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A Mongólia está há 70 anos usando o alfabeto cirílico, imposto pelo stalinismo, para escrever sua língua, mas se propôs a deixar de fazê-lo em 15 anos e voltar ao velho alfabeto mongol, um dos poucos do mundo que é lido na vertical.

Parece difícil crer agora, pois passeando pelas ruas de Ulan Bator o cirílico ainda é o dominante e o mongol, uma escrita que para um não iniciado tem aspecto de árabe vertical, só pode ser visto em alguns letreiros e com intenções mais decorativas.

Mas os defensores da volta às origens têm certeza de que a mudança de escrita vai acontecer, embora o alfabeto latino também tenha começado a fazer parte da vida dos jovens mongóis através dos computadores e dos celulares.

"Em 2015 foi aprovada a lei que estipulava que até 2025 serão usadas oficialmente as duas escritas, cirílica e mongol, e em 2030 finalmente se usará exclusivamente a segunda", explicou à Agencia Efe Bazarsad Elbegzaya, editor do jornal "Khumuun Bichig", um dos primeiros publicados integralmente na grafia tradicional.

O nome do jornal, cuja página na internet tem um design fascinante, significa "Escrita humana", já que, na opinião dos defensores destas velhas letras que quase foram apagadas pelo ditador soviético Iosif Stalin, as palavras verticais escritas com esta grafia são como pessoas em pé.

A Mongólia, o primeiro país do mundo a seguir o modelo comunista instaurado na União Soviética em 1917, foi durante décadas um Estado satélite de Moscou, como demonstra a imposição do cirílico e a arquitetura socialista, ainda muito visível nas hoje cobertas de neve ruas de Ulan Bator.

Essa imposição, junto com expurgos de intelectuais que a Mongólia sofreu nos anos 50, levou o alfabeto local a seu quase desaparecimento e em alguns momentos do século XX apenas meia centena de pessoas o conheciam neste país de Ásia Central.

O que o ajudou a sobreviver foi o fato de que se conservou na região chinesa da Mongólia Interior, onde a etnia mongol que vive lá nunca usou o cirílico: essa grafia não só pode ser vista nas lojas dessa divisão do norte chinês, mas também em muitos templos de Pequim e até nas notas de iuane.

Na Mongólia, o desejo de recuperação do velho alfabeto, que tem 800 anos de idade, se multiplicou com a revolução que derrubou seu regime comunista em 1990, e embora a princípio os esforços tenham sido tímidos, pela força do costume de usar o cirílico, começaram a surgir escolas desta escritura.

São centros como o Instituto de Língua e Civilização Choi Lubsangjab, na região mais central da capital, onde cerca de 300 crianças o estudam, mas também o transformam em arte, já que para a escrita mongol, como para a chinesa, a caligrafia é um saber em si mesmo que se cultiva com paixão.

"Fazemos isto para transformar o mongol em algo mais interessante e atrativo", contou à Agência Efe um dos professores, Erdenebat Ankhbayar, enquanto mostra salas de aula cheias de quadros nos quais os únicos escritos são as letras caligrafadas.

O povo de Ulan Bator confessa estar acostumado às letras cirílicas que chegaram da Europa, mas nem este professor nem Elbegzaya acreditam que a mudança que acontecerá até 2030 será dolorosa, pois, raciocinam, não se trata de substituir um idioma, mas só a forma de modelá-lo em papel.

"As políticas de ensino começaram há uma década, agora nas escolas primárias há crianças que o estudam há quatro anos, portanto em 2025 a mudança não será tão complicada", opinou Ankhbayar.

A sabedoria popular diz que o alfabeto mongol, que provém do uigur (outro povo da Ásia Central) é vertical porque os nômades da Ásia Central o liam melhor assim enquanto cavalgavam sobre o lombo de seus cavalos.

Outros sistemas de escrita da Ásia Oriental, como o chinês, o japonês e o coreano, também foram na antiguidade escritos verticalmente, mas se tornaram horizontais pelo contato com o Ocidente, uma cessão que os defensores do velho alfabeto mongol prometem nunca fazer.

EFE   

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