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Por que desenhista foi acusado de esconder 'mensagem de ódio' em HQ dos X-Men

11 abr 2017
08h00
atualizado às 09h00
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A editora Marvel Comics se retratou publicamente após o desenhista da primeira edição de uma nova série dos X-Men incluir na arte da publicação referências a uma polêmica político-religiosa em curso na Indonésia.

A primeira edição de X-Men Gold gerou muita controvérsia nos EUA e na Indonésia
A primeira edição de X-Men Gold gerou muita controvérsia nos EUA e na Indonésia
Foto: Marvel Comics / BBCBrasil.com

Colaborador freelancer da empresa, Ardian Syaf é indonésio e muçulmano. Ele foi chamado de "fanático" e acusado de "disseminar o ódio" por usuários de redes sociais por conta de seu trabalho na HQ.

A primeira edição da série X-Men Gold foi publicada na semana passada. O desenhista disse à mídia indonésia que de fato expressou suas visões políticas na publicação, mas negou que quisesse propagar ódio.

A Marvel disse que as referências consideradas ofensivas serão excluídas de reimpressões e que aplicará medidas disciplinares contra Syaf.

Símbolo da camiseta de um personagem faz referência a uma passagem do Alcorão
Símbolo da camiseta de um personagem faz referência a uma passagem do Alcorão
Foto: Marvel Comics / BBCBrasil.com

Dois símbolos

Dois símbolos deram origem à polêmica. O primeiro está na camiseta usada pelo personagem Colossus, em que se lê 'QS 5:51', referência a uma passagem do Alcorão, livro sagrado da religião muçulmana.

Esse trecho é interpretado por alguns como uma indicação de que muçulmanos não devem ter judeus ou cristãos como líderes.

O número 51 aparece em outros pontos ao longo da edição, esquentando ainda mais a controvérsia, por ser interpretado como uma referência ao julgamento de um importante político do país, acusado de blasfêmia.

A mesma passagem do Alcorão foi citada pelo governador da região de Jacarta, capital do país, durante a campanha eleitoral no ano passado, causando uma onda de indignação, especialmente entre muçulmanos conservadores.

A promotoria diz que Basuki Purnama - mais conhecido no país como Ahok -, que é cristão e descendente de chineses, insultou o islã. Ele pode ser condenado a até cinco anos de prisão.

Purnama diz que seus comentários se referiam a "políticos que usavam a passagem incorretamente" para se posicionar contra sua reeleição.

O segundo símbolo aparece escrito em uma cena em que a personagem Kitty Pride, atual líder dos X-Men, fala com pessoas na rua. Muitos leitores ligaram o número "212" escrito em uma parede à data do maior protesto já organizado por muçulmanos conservadores contra Purnama, em 2 de dezembro de 2016. Syaf já havia dito que participara desse protesto.

O número '212' faz referência a um protesto ocorrido em Jacarta
O número '212' faz referência a um protesto ocorrido em Jacarta
Foto: Marvel Comics / BBCBrasil.com

'Não refletem visão do autor'

A Marvel disse que as referências foram incluídas na arte da edição sem que a empresa tivesse conhecimento de seu significado. "Elas não refletem a visão do autor, dos editores ou de qualquer outra pessoa na Marvel e vão contra os ideiais de inclusão que a Marvel Comics e os X-Men defendem desde sua criação."

Os X-Men são um grupo de super-heróis mutantes que lutam contra o radicalismo e o preconceito e pela paz com humanos.

Gary Choo, ilustrador que já trabalhou para a Marvel, diz que ocultar referências a posições e ideais políticos em HQs não é algo novo.

"A política vai continuar a estar presente nos quadrinhos, mas, pelo que a Marvel representa, esse episódio definitivamente não se encaixa nas suas histórias", disse Choo.

Syaf reagiu à polêmica em sua página no Facebook dizendo que as pessoas que o criticaram "não o conhecem". "Minha carreira acabou. É uma consequência do que fiz. Por favor, sem mais piadas, debate ou ódio. Perdão pela confusão. Adeus. Que Deus os abençoe", escreveu.

Mas isso não deu fim aos comentários críticos de fãs e leitores. "Ninguém precisa 'conhecer você' para entender o que você fez", disse Andy Apsay no Facebook. "Foi descarado e intencional. Engula seu orgulho. Você não é mais importante que a Marvel."

Outros como Gusti Sumariana disseram que o artista estava "disseminando o ódio contra cristãos e judeus" por meio do seu trabalho. "Mantenha seu fanatismo longe dos X-Men", escreveu outro usuário na rede social.

Houve quem defendesse Syaf. "As pessoas são livres para reagir como quiserem. Artistas são livres para expressar o que quiserem", escreveu um indonésio no Facebook.

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