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Zeca Camargo planeja nova volta ao mundo e série para adolescentes

18 out 2010
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Márcio Maio

Zeca Camargo sempre gostou de se aventurar em experiências novas. E foi exatamente assim que, há 23 anos, iniciou uma trajetória no jornalismo capaz de fazer inveja na maior parte dos profissionais brasileiros. Foi correspondente da Folha de S. Paulo em Nova Iorque, chegou a editar o caderno de cultura do mesmo jornal e a revista Capricho, participou do lançamento da MTV como um dos VJs mais lembrados do canal e apresentou o Fanzine na TV Cultura. Mas foi na Globo que ele ficou conhecido por suas voltas ao redor do mundo, mostrando desde os principais monumentos às maiores cidades do planeta.

"A maioria dos jornalistas diz que quer ser como eu. Muita gente se oferece para ser meu assistente. Mas sempre brinco que precisam pegar senha, porque a fila é enorme", divertiu-se o apresentador do dominical Fantástico que, na verdade, estudou Administração de Empresas, Publicidade e Propaganda e Filosofia. Há 14 anos no programa, Zeca garante que é a capacidade de reinvenção da produção, que comemorou 37 anos em 2010, que o faz não querer sair. E já planeja novidades para o próximo ano. Claro, sem tirar o passaporte da pasta de trabalho. "Sugeri uma nova volta ao mundo e uma série voltada para os adolescentes", adiantou ele, que também é coordenador de séries e quadros do Fantástico.

Você sempre foi inquieto na carreira. Passou pela Folha de S. Paulo duas vezes, foi editor da Capricho, participou do lançamento da MTV, fez programa jovem na TV Cultura, mas está no Fantástico há 14 anos. O que o fez "criar raízes" no programa?
O Fantástico tem 37 anos, mas muda o tempo todo. Ser diferente sempre fez parte do projeto original dele. E só apresento o programa oficialmente há três anos. Sou de uma nova geração ali. Isso tudo dá um certo frescor. É um formato de experimentação, um ambiente que vivi também na época da MTV. Quando surge uma ideia nova na Globo, inevitavelmente isso passa por nós. E vai de Regina Casé, com Central da Periferia, a Caco Barcellos, com Profissão Repórter. Gosto desse clima de "tubo de ensaio", que não me limita. Já entreguei projetos para o ano que vem que vão desde uma nova volta ao mundo até um outro quadro para adolescentes. Essa elasticidade dá o barato da criação. E o que mais me agrada no jornalismo é trabalhar com ideias.

Mas nesses 37 anos, a TV mudou muito, assim como o próprio telespectador. Isso dificulta vocês, já que é complicado criar algo que ainda não tenha sido visto?
Sim, só que temos de Dicró a Drauzio Varella no mesmo domingo. Como alguém pode enjoar de um programa assim? É importante ver, sim, que a relação das pessoas com a TV mudou. Hoje existe uma informalidade maior. Mas, mesmo nesse novo patamar, o Fantástico é uma referência. Os jovens, por exemplo, assistem ao programa com a família toda. E não podem se sentir excluídos. Nem quando os pais veem pela TV e os filhos, pela internet. O quadro do Fiuk é o mais assistido no site atualmente. E não são os pais que estão vendo. Fico surpreso pelo fato do resto da imprensa não entender e começar a cobrar parâmetros antigos do Fantástico, sem perceber que a maneira como as pessoas assistem ao programa mudou.

O Fantástico é um dos programas da Globo que mais explora a interatividade. Ainda existem barreiras na hora de se conectar com os telespectadores?
Existem limites na compreensão das pessoas sobre a linguagem de TV. É um veículo que faz tão parte deles, com uma informalidade tão forte, que nem sempre percebem o que funciona ou não no ar. Não somos um blog, estamos em cadeia nacional, com um compromisso. O cara não pode falar qualquer coisa. Mas fazemos algo que agrada demais o público e nem é divulgado no programa, só na nossa página na internet: nos intervalos, eu e a Patrícia Poeta ficamos no chat com os internautas. É pouco tempo, uns três minutinhos entre as chamadas, mas as pessoas ficam encantadas.

Você se acostumou a falar para os jovens na MTV, na TV Cultura e na revista Capricho. No Fantástico, também trabalha em quadros e matérias para esse tipo de público. Como é lidar com eles aos 47 anos?
Eu não posso mentir que não tenho 47 anos e nunca escondo minha idade. Não vou chegar usando gírias, falando ¿irado¿, até porque esse não sou eu. Quando faço algo direcionado para os jovens, tento me mostrar como alguém que não faz parte do universo deles, mas que o conhece esse universo. Se um garoto de 17 anos escuta um disco do Bob Dylan, sabe que se trata de alguém que não está cantando especificamente para ele. Mas também sabe que o cara já teve 17 anos e tem noção de como é essa fase.

Você sempre direcionou sua carreira para o jornalismo cultural. Quando foi chamado para apresentar um reality show, sentiu receio de se comprometer como jornalista?
Honestamente, nem tinha ideia do que era. Sobretudo de que ia ser uma febre. Hoje, é um formato de sucesso, mas ninguém sabia que seria dessa forma. Ironicamente, fiquei gravando o primeiro No Limite enquanto o programa era exibido, a equipe estava isolada em função do sigilo. Mas eu não tinha pudores, não pensava se aquilo ia me afastar ou me aproximar do jornalismo. Eu sempre mudei muito, e quando você faz um trabalho bem feito, faz em qualquer lugar. Existe um pouco de resistência em quem vê TV e acha que a gente tem de fazer aquilo que sempre faz. Acho que a reação das pessoas ¿ ainda mais de quem pensa e analisa a TV ¿ é muito mais conservadora do que a de quem está fazendo. Reality show é cultura pop, uma área que sempre me interessou. Quando entrei em No Limite, encarei como uma grande reportagem. Da mesma forma que encaro as séries de volta ao mundo que já fiz.

De todos os jornalistas no Brasil, você é um dos que mais viaja a trabalho, em função de suas séries de volta ao mundo. Como você lida com isso? Muitas pessoas brincam que sonham com sua vaga...
Sempre escuto isso. A maioria diz que queria ser como eu, mas já tem muita gente que se oferece para ser meu assistente. Sei que isso desperta o interesse das pessoas, só que, de verdade, é bem menos glamouroso do que parece. É trabalho mesmo, a gente vai para uns lugares complicados. Nova Iorque e Tóquio tudo bem, mas vai parar em países menores, quase sem estrutura e tendo de gravar uma série! É instigante, eu adoro, mas dá muito trabalho.

Que tipo de trabalho? Como são feitas essas viagens?
Depende. Cada lugar tem uma estrutura diferente. Essa última série, das megacidades, exigiu uma produção grande. Mas dentro da nossa realidade. Porque se você perguntar o que é uma produção grande, pode se surpreender com a realidade. A ideia era conversar com pessoas ligadas a Urbanismo, contar a vida nesses lugares e achar personagens que topassem que a gente passasse praticamente 24 horas com eles. Pré-produzimos em 10 meses. Passamos três, quatro dias em cada lugar. Mas o "passamos" significa um cinegrafista, uma produtora e eu. Três pessoas. Já na primeira volta ao mundo, aquela aventura doida de não saber aonde a gente ia, eram 18 semanas, quatro meses e meio de duração. Até pela questão da aventura, do desafio de estar num lugar que a gente não conhecia, a equipe era bem reduzida: só eu e o repórter cinematográfico.

Você tem ideia de quantos países e cidades já visitou?
Eu brinco que fui a 94 países e meio, porque conheci a Alemanha Oriental, que hoje não existe mais. Agora, sobre cidades, são mais de 500 fácil! Já viajei muito. Houve anos em que eu fui nove vezes a Londres. Tem uma produtora que brinca que Londres é o bairro mais distante de São Paulo para mim, porque vivo lá. Mas a gente faz matérias na Inglaterra. Em 2007, por exemplo, várias bandas de Londres estavam vindo se apresentar aqui e a gente queria entrevistá-las.

Depois de viajar tanto a trabalho, o que você faz quando está de férias?
Eu viajo também, ué!? Mas existe uma pequena distorção porque, como eu viajo muito para trabalhar, fica mais difícil tirar férias. Nesse ano, fiquei fora um mês fazendo as megacidades. É como se não pudesse tirar férias. Acabo tirando períodos curtos. Posso pegar uns cinco dias e ir para Madri na segunda para voltar sexta, essas coisas. Minhas últimas férias grandes foram em 2007, antes de me tornar oficialmente apresentador do Fantástico.

Fantástico - Globo - Domingo, às 20h30.

Na hora certa
O que mais Zeca Camargo tem é histórias para contar. Mas, curiosamente, não é sobre as viagens que o apresentador passa mais tempo falando. É sobre gente. Foi ele o primeiro jornalista a ouvir da boca do cantor e compositor Cazuza que seus tratamentos em Boston eram mesmo em função do vírus HIV. E Zeca conta emocionado cada detalhe daquele fatídico fim de tarde em Nova York. Na época correspondente da Folha de S. Paulo, ele ia fazer uma simples entrevista com Cazuza até que o cantor, em tom de desafio, ofereceu um gole de vinho ao repórter. Mas de seu próprio copo. "Eu era uma pessoa instruída, mas o preconceito ainda era grande naquela época. Não foi por minha atitude de beber que ele se abriu, mas sei que isso ajudou a estabelecer a relação de confiança", lembrou Zeca, que ouviu da boca do ídolo pop que ele estava "com a maldita", referindo-se à aids.

Assustado com o resultado de sua conversa com o cantor, Zeca ligou para a redação e uma matéria pequena, de duas colunas, acabou se transformando em sua estreia na primeira página da publicação. Para isso, precisou bater o texto na mesma hora, de um pequeno escritório que era dividido com a equipe de um jornal turco. A notícia repercutiu em veículos de todo o Brasil. "Sem dúvida, ganhei mais respeito e admiração dos colegas a partir desse dia", valorizou.

Lado pop
Apaixonado por música, Zeca não hesita na hora de responder qual é o momento mais marcante em sua carreira na TV: a cobertura da segunda edição do Rock In Rio, pela MTV. E, curiosamente, entrega que outra cena inesquecível presenciada nesses 23 anos de trabalho como jornalista aconteceu durante a apresentação do reality No Limite, da Globo. Mais precisamente na gravação da final, que não foi exibida ao vivo, quando a cabeleireira Elaine Cristina contrariou o favoritismo da gaúcha Pipa e conquistou o prêmio de R$ 300 mil e um carro novo. "Foi muito inesperado. A mandala caiu, todo mundo se olhou, a regra era aquela. Senti uma emoção única", exagerou.

Trajetória televisiva
# MTV no Ar (MTV, 1990) - Apresentador.
# Semana Rock (MTV, 1990) - Apresentador.
# A Entrevista (MTV, 1991) - Apresentador.
# Fanzine (TV Cultura, 1994) - Apresentador.
# Fantástico (Globo, a partir de 1996) - Repórter e apresentador substituto.
# No Limite (Globo, 2000) - Apresentador.
# No Limite 2 (Globo, 2001) - Apresentador.
# No Limite 3 (Globo, 2001) - Apresentador.
# Hipertensão (Globo, 2002) - Apresentador.
# Fantástico (Globo, a partir de 2007) - Apresentador.
# No Limite 4 (Globo, 2009) - Apresentador.

Zeca Camargo diz que muita gente se oferece para ser seu assistente só para poder viajar com ele
Zeca Camargo diz que muita gente se oferece para ser seu assistente só para poder viajar com ele
Foto: Luiza Dantas/Carta Z Notícias / TV Press
Fonte: TV Press
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